DICAS CULTURAIS

A Filosofia na Alcova

 

por João Marinho

França, 1789. Estoura a Revolução. No dia 14 de julho, o povo toma a Bastilha. Dias antes, Donatien-Alphonse-François, o Marquês de Sade, gritava da janela de sua cela que os guardas queriam massacrar os detentos. Ele foi, então, transferido para o hospital para loucos e epilépticos de Charenton Saint Maurice, até ser liberto, em 1790, pela Assembléia Constituinte.

Apesar da origem aristocrática, Sade aderiu à Revolução Francesa, mas não lhe faltaram inimigos entre republicanos e membros da antiga monarquia. Seu comportamento sexual exótico e devasso e seus polêmicos textos fizeram com que passasse boa parte da vida preso.

A obra de Sade incomodava porque cometia o “desaforo” de unir pornografia, filosofia e brutalidade. Seus livros apresentavam a concepção de um mundo dominado pelo crime e onde o prazer sexual agia como regulador de uma sociedade sem leis.

Esse é o ponto de partida para entender o livro “A filosofia na alcova”, lançado em português pela editora Iluminuras (http://www.iluminuras.com.br, tel. (11) 3068-9433, R$ 44). O original francês foi publicado em 1795.

Como outras obras de Sade, a história se passa em um ambiente aristocrático: a propriedade da Senhora de Saint-Ange. Trata-se de uma mulher rica e casada com um homem bem mais velho, que transa com outros homens e mulheres e se interessa por uma jovem de 15 anos, Eugénie.

Na casa de Saint-Ange, a jovem é “doutrinada” por esta e por um homem chamado Dolmancé. O objetivo é eliminar todo e qualquer resquício de moralidade.

Apoiados pelo Cavaleiro de Mirvel, irmão e amante de Saint-Ange, e pelo jardineiro Augustin, os três experimentam toda sorte de relações e posições sexuais, acompanhadas de uma filosofia que, entre outras coisas, justificará o assassinato, pregará o ateísmo e apresentará a crueldade como motor do universo.

Saint-Ange, Dolmancé e o Cavaleiro de Mirvel, em especial, são libertinos, personagens típicos de Sade: ricos, individualistas, com tesão exagerado e que gozam infligindo sofrimento às suas vítimas – preferencialmente mulheres que, em outros romances, seriam heroínas-modelo.

Aqui, a vítima é a Senhora de Mistival, mãe de Eugénie, que é humilhada, açoitada, estuprada e tem o ânus e a vagina costurados a sangue frio.

Representada na dupla vítima X libertino, a oposição virtude X vício é essencial em Sade, que considera a primeira vazia e sem sentido. Para ele, a virtude serve apenas como máscara para encobrir o vício.

Esse é um dos pontos-chave da obra do autor. A virtude, especialmente a cristã, é falsa, pois nega as inclinações naturais do ser humano. A natureza surge, então, como um dos principais argumentos: não há Deus, e o homem deve guiar-se por ela, que é egoísta e cruel. Mesmo assim, isso resultaria em uma sociedade mais justa e feliz.

O texto de “A filosofia na alcova” é duro e é preciso relevar algumas idéias, mas a leitura não apenas abre os olhos para a nossa própria hipocrisia moral, como também mostra que a pornografia pode ser um meio legítimo de interpretar o mundo.

A Filosofia na Alcova
Autor:
Marques de Sade
Editora: Iluminuras
Preço: R$ 44


Imagens: Divulgação