Último mês para conferir mostra de cinema erótico

por Bruno Cavalcante

 

Em Je Vous Salue, Marie, de Jean-Luc Godard, uma jovem virgem descobre estar grávida (Foto: divulgação)

 

O bairro da Vila Mariana é conhecido pelos paulistas como um point das melhores baladas de São Paulo e dos bares mais elegantes; há, entretanto, outra extremidade do bairro, onde moram aqueles que são avessos a badalações e grandes festas, frequentam bares apenas para uma ou outra eventual compra de emergência e nem pensar em pegar o metrô em horário de pico.

É exatamente nessa extremidade do bairro que se encontra o Sesc Vila Mariana, ponto de encontro da juventude indie de São Paulo, ligados à modernidades e à cultura em geral. Fãs de músicas, exposições, cinema e teatro se encontram ali para trocar figurinhas e aproveitar o que a cultura paulistana tem a oferecer. É exatamente por isso que soa tão inusitada a proposta da rede Sesc de promover o Cine Privê, exposição itinerante que apresenta o melhor (e o pior) do cinema erótico.

É claro que por erótico não se entende pornografia. O erotismo apresentado na exposição do grupo Sesc é muito mais insinuativo do que aberto a olho nu. Não há nenhum ato sexual, nenhuma parte do corpo livremente exposta tampouco palavras consideradas de baixo calão. Tudo ali é elegante e sugestivo, como o erotismo pede – Madonna não faria melhor.

A sala da exposição é iluminada por flashes vermelhos e cor-de-rosa e todos os filmes expostos nas pequenas telas grudadas às paredes são sugestivos. Muitos sequer têm uma ligação direta com o mercado erótico. Quem diria, por exemplo, que Um Cão Andaluz (1929), transgressor filme da vanguarda da década de 1920 dos franceses Luis Buñuel e Salvador Dali, teria conotações tão eróticas quanto o tchecoslovaco Êxtase (1933) do austríaco Gustav Machatý?

 

    

O filme Um Cão Andaluz, com a famosa cena da navalha, é considerado um clássico e causou frisson com seu surrealismo. O erotismo faz parte do leque sensorial que o filme tem (Foto: divulgação)

 

São destes pequenos detalhes que a exposição se serve. Apelando para a memória de seu público, os filmes Último Tango em Paris (1972) e Calígula (1979) são os únicos que mostram o ato sexual explícito e reavivam na memória o cinema dos idos anos 70 que, assim como a música, já mostrava sua face sexo, drogas e rock and roll.

Passando para alguns anos mais tarde, o Cine Privê abusa da imaginação do público quando exibe filmes como Je Vous Salue, Marie (1985), de Jean-Luc Godard e o britânico-canadense Crash – Estranhos Prazeres (1996), que quase abocanhou uma Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1996.

 

        

Crash – Estranhos Prazeres é um exemplo das inusitadas abordagens psicológicas do cineasta David Cronenberg. Aqui, os personagens têm atração sexual por batidas de carro (Foto: divulgação)

 

Encerrando a exposição há Os Idiotas (1998), clássico filme cult que divide sua nacionalidade entre Espanha, Dinamarca, Suécia, França, Hollanda e Itália e, em 1997, dividiu a opinião pública entre o mau gosto e a excitação do quase estreante Lars von Trier. Uma peça de ouro.

A exposição Cine Privê tem a vantagem de ser mais do que apenas uma mostra de cinema erótico, promovendo debates e a participação do público em oficinas e palestra, como a que abriu a mostra no dia 2 de maio com a explicação do uso do corpo no cinema em uma performance que misturou linguagens com os atores Dudu Tsuda e Karina Montenegro.

 

          

Os Idiotas, de Lars von Trier, polemizou por uma cena de sexo não simulada e outra de uma ereção (Foto: divulgação)

 

Mas não pense que já acabou: o grande chamariz se encontra na tão comentada cabine do beijo. Nada demais na realidade, apenas uma cabine em que casais e não casais podem se encontrar informalmente pra trocar beijos e carícias. As cortinas da cabine te dão verdadeira privacidade; o odor de morangos excita a imaginação e, para os menos criativos, o telão da cabine exibe beijos épicos, como os dos filmes Casablanca (1942), As Pontes de Madison (1995) e do musical Cantando na Chuva (1952).

Para os fãs do cinema em geral e para aqueles que gostam de cinema erótico, o Cine Privê é uma dica para se aproveitar. Vale conferir.

As próximas atrações:

Entre 20 de junho e 11 de julho (sempre às quintas-feiras) às 19h30 e às 21h30 um curso sequencial de Panorama Crítico das Representações do Sexo no Cinema Americano em um sequencial de quatro aulas.

Cine-debate: Homoerotismo em cena
 
16 de julho
15h – O Outro Lado de Hollywood (1996, EUA). Direção: Jeffrey Friedman.
 
Cinesábado
 
“Amor e desejo na terceira idade”
 
13 de julho
14h45 – Saraband (2003, Suécia). Direção: Ingmar Bergman. Recomendado para maiores de 14 anos.
 
20 de julho
14h45 – E Se Vivêssemos Todos Juntos? (2012, Alemanha). Direção: Stéphane Robelin. Recomendado para maiores de 12 anos.
 
27 de julho
14h45 – Depois de Tudo (Brasil, 2008). Direção: Rafael Saar. Recomendado para maiores de 10 anos.
Tempestade na Estrada (2011, Canadá/EUA). Direção: Thom Fitzgerald. Recomendado para maiores de 12 anos.
 
A entrada é franca e os ingressos serão distribuídos com uma hora de antecedência.
 
Cine Privê – O Erotismo no Cinema. Sesc Vila Mariana. Rua Pelotas, 141 – Vila Mariana, Zona Centro-Sul, São Paulo, SP. Telefone: (11) 5080-3000.
 
Para consultar mais informações acesse o site do Sesc Vila Mariana.
 
Imagem no destaque: Divulgação