FETICHE

Bate que eu gosto

por João Marinho

Tudo sobre o spanking, a arte de fazer “marquinhas” no corpo


Se você curte sexo – nós imaginamos que sim –, e gosta de se informar sobre o assunto, certamente já deve ter ouvido falar do BDSM. Se não ouviu ou já se esqueceu, vale a pena “revisar” o conceito antes de entrarmos no tema desta matéria, que nada mais é que a arte de espancar os outros.

Ops, calma! Vamos primeiro falar sobre BDSM, certo? Especificamente, a sigla quer dizer: B&D (bondage e disciplina), D&S (dominação e submissão) e S&M (sadismo e masoquismo). Bondage é a técnica de imobilizar a pessoa com cordas, correntes e similares. Sadismo é o prazer de infligir dor a alguém, e masoquismo, o de sentir essa dor. Os demais termos explicam-se por si mesmos. Dentre as práticas relacionadas ao BDSM, uma das mais freqüentes é o spanking, que, em uma tradução literal, quer dizer “espancamento”. Como há dor, trata-se de um ritual relacionado ao sadomasoquismo (S&M).

O que é spanking?

No contexto BDSM, spanking, porém, não é simples violência, como se pode pensar à primeira vista.

“A violência doméstica é muito confundida com o S&M, o que é uma pena. O S&M é litúrgico, é ritual, é entrega porque você quer se entregar”, diz Bela, proprietária do Clube Dominna, em São Paulo – um dos únicos espaços especializados em BDSM na América Latina.

Deu pra sacar que a coisa não se resume a descer a mão? “O spanking não é a dor pela dor. Há todo um contexto de se entregar para a pessoa que o está dominando e oferecer aquela dor para ela, que vai ter prazer em causá-la, e a alquimia de transformar a dor em prazer. É mágico”, explica Bela.

É claro, você não precisa ser “engajado” e nem ir a um lugar como o Dominna para dar uns tapas na namorada de vez, mas é importante prestar atenção no que esse pessoal tem a dizer.

Antes tudo, spanking, como toda prática BDSM, tem de ser são, seguro e consensual. É importante que sua namorada concorde com a brincadeira e que vocês deixem claro até onde podem ir.

Entre os praticantes de BDSM, define-se uma palavra de segurança (safeword), que, uma vez pronunciada por quem apanha, deve fazer o que bate parar imediatamente – é sinal de que a pessoa está levando mais do que pode suportar.

Para aumentar a segurança, clubes especializados ainda conta com moderadores. A dominatrix Walkiria Schneider já desempenhou essa função: “Às vezes, o escravo entra em ‘subspace’. Ele fica tão envolvido que começa ‘a viajar’ e pode não perceber a dor”. É uma das vantagens de dividir a prática com amigos mais experientes. Além disso, para evitar descontroles, drogas (inclusive bebidas) são terminantemente proibidas antes de uma sessão.

Entre tapas e beijos

Bater em qualquer lugar não vale, e a intensidade deve ser previamente combinada e levada em conta na hora de escolher a região do corpo. Dependendo do local, golpes muito fortes resultam em problemas sérios.

Para quem está iniciando, a dica é apostar no bumbum. Para outras regiões, é preciso um pouco mais de cuidado e conhecimento. “Nunca nas articulações, nunca na região dos rins, nunca no meio da coluna. Nas costas, somente nas omoplatas [...] Na face, bate-se só na região da maçã do rosto. Além disso, deve-se segurá-lo. A sola do pé, em alguns pontos, dependendo do acessório”, diz Walkiria. Também existe o spanking nos genitais (ai!), mas isso é só pra quem tem muita experiência e sabe usar os acessórios específicos para essa região.

Há vários deles, uns mais duros e mais flexíveis, adequados para cada parte do corpo: chicotes (longos ou de nove caldas, aquele cheio de tirinhas), canes (varas), palmatórias, relhos, etc. Alguns só podem ser usados por pessoas bem treinadas.

Exagero? Nem tanto. Um golpe mal aplicado pode atingir regiões sensíveis e acabar com a brincadeira – e com a pessoa que o levou. Isso é tão sério que o ideal, para quem está começando, é imobilizar totalmente quem vai receber os golpes, para que, numa virada involuntária, ela não ponha tudo a perder.

Teatro S.M.

A prática do spanking popularizou-se com a disciplina aplicada no sistema educacional inglês. Lá, fora do contexto BDSM, até hoje “spanking” significa, a princípio, bater com as mãos e nas nádegas, embora as escolas também utilizassem varas e palmatórias.

A história, porém, é certamente mais rica, pois o hábito de educar crianças com tapas, chineladas, etc. é muito popular. Isso, inclusive, faz com que o spanking freqüentemente venha associado com fetiches como o infantilismo (quando a pessoa gosta de se vestir de criança) e com cenas que envolvem pessoas interpretando aluna e professor, filha e pai, filho e mãe, etc.

A flexibilidade de papéis é enorme e não diz nada quanto à orientação sexual dos participantes. “Pra gente, não existe essa [relação em] conotação de sexualidade. O que existe é o prazer da prática”, conclui Walkiria. Isso quer dizer que o fato de uma mulher ter uma escrava não quer dizer que elas sejam lésbicas. Idem, se um homem escravizar outro. Embora isso não deva ser algo que o leitor vá querer fazer...

Para saber mais:
www.clubedominna.com: site oficial do Clube Dominna

Higiene é tudo!

A assepsia dos instrumentos do spanking é importante, especialmente quando usados em mais de um (a) escravo (a). É preciso passar lisoforme e cândida após cada uso. Para quem não pode ficar com marcas – algo a ser discutido antes da sessão –, vale usar gelo e, no caso de cortes, os cuidados já conhecidos, como a aplicação de água oxigenada. Há também produtos que auxiliam a cicatrização.



Glossário:

  • Top (ou mestre): a parte dominante da relação BDSM. Há o sádico, que causa dor, e o dominador, que curte apenas dominar, doutrinar o escravo;
  • Bottom (ou escravo): a parte dominada. Há o masoquista, que curte sentir dor (contrapartida do sádico), e o submisso, cuja curtição é servir (contrapartida do dominador);
  • Baunilha: as pessoas “comuns”, não adeptas do BDSM;
  • OTK (over the knees, sobre os joelhos): posição em que a pessoa que recebe o spanking fica de bruços no colo de quem bate. Igualzinho é feito para castigar crianças;
  • Spanko: em inglês, é o nome genérico do adepto do spanking, que pode ser um spanker (o que bate) ou um spankee (que é surrado). Há também o switch, que é quem se sente à vontade nos dois papéis.

  • Fotos: Reprodução/Divulgação