FETICHE

Chuva dourada

 

Submissão, humilhação, prazer, repulsa. A chuva dourada, o ato de urinar no parceiro ou na parceira sexual, é uma prática que ganha cada vez mais adeptos mundo afora e já conta com sites especializados e até serviços de e-mail e chats, mas o que você realmente sabe sobre isso?


por João Marinho

Muitos não sabem, mas a origem do termo “fetiche” não tem nada de sexual. A palavra foi retirada do francês “fétiche”, que, se traduzida pro português, dá como resultado a palavra “feitiço”.

Que é fetiche?

“Fetiche” foi a expressão utilizada por Charles de Brosses, em 1757, para se referir a objetos que, em uma cultura, são apontados como detentores de poderes sobrenaturais – e foi somente com Freud, o pai da psicanálise, que o termo passou para a área sexual. Hoje, considera-se fetichismo a condição pela qual o objeto de afeição é um objeto inanimado específico ou uma parte do corpo de uma pessoa.

Fetichismo seria, numa visão muitíssimo conservadora, um assunto para ser tratado pela psicologia e/ou psiquiatria, como uma parafilia. Entretanto, a não ser quando a “tara” atinja níveis inadequados e insustentáveis, o termo já se popularizou, e hoje é usado muitas vezes para se referir a uma série de práticas e preferências sexuais mais ou menos incomuns, e sem necessariamente qualquer implicação, digamos, negativa.

A chuva dourada, pissing (“mijar”, em inglês) ou watersports, tem o nome científico de urolagnia ou urofilia e está em um lugar polêmico entre a parafilia e a simples preferência. Ela consta de publicações dirigidas a psicólogos e psiquiatras, mas quem é adepto alega que é apenas gosto pessoal. Existe até uma bandeira internacional do Orgulho Urolagnista, que é totalmente amarela, por motivos óbvios.

Seja como for, o intuito aqui é apenas trazer informações sobre a prática em si – e fica a critério do leitor ou dos especialistas praticar ou não ou tentar entender o porquê de tê-lo feito.

Repulsa cultural

A primeira coisa a ser tematizada é a repulsa que a urina causa. Afinal, ao urinar, o corpo está expulsando alguma coisa.

É o que pensa o bibliotecário W. S., de São Paulo, que urinou em alguém apenas uma vez na vida. “Durante o sexo oral, ficou apertando o meu saco e a bexiga, ali na região dos pelos pubianos. Pediu pra eu urinar na boca e bebeu. Só fiz porque, com aqueles apertões, acabei ficando muito ‘apertado’ [...] depois disso, não quis mais saber”.

De fato, urinar é fazer um tipo de “expulsão”, mas não do jeito que as pessoas imaginam. A urina é constituída basicamente de água, ácido úrico e ureia.

O ácido úrico, que existe em menor escala, é formado no metabolismo do nitrogênio. Se existir em grande quantidade no corpo, o ácido pode cristalizar-se nas articulações, criando um tipo de artrite, ou nos rins, criando pedras. Acontece se o sistema urinário está com algum problema.

Já a ureia é a forma pela qual eliminamos a amônia, um subproduto comum nos processos orgânicos, mas altamente tóxico. Por isso, o corpo quebra as moléculas e dá origem à ureia, uma substância bem menos perigosa.

Para que a chuva dourada fosse um problema em si, a pessoa teria de beber e se meter a tomar vários e vários porres de litros de urina, se não, o corpo simplesmente envia a ureia e o ácido úrico de volta para os rins e os elimina novamente. Além disso, em comparação com outros fluidos do corpo, a urina é relativamente estéril.

Chuá-chuá

Existem diversas modalidades de chuva dourada. A mais básica é quando um dos parceiros fica com vontade de urinar, depois do sexo. Normalmente, é praticada no banho e em regiões menos “sensíveis”, como as pernas ou a polpa da bunda.

No “meio do caminho”, há a chuva como parte integrante da transa. Aqui, existe um quê de dominação e submissão, que é o que dá um gosto especial (sem trocadilhos) à prática. Pode-se urinar em lugares como o ânus (“abrindo o bumbum”), a boca, a região da vagina, o pênis e o rosto.

Mais hardcore é a urolagnia ligada ao BDSM. Aqui, existe um mestre e uma escrava ou dominador e submissa (ou vice-versa), e a chuva é usada como uma forma de humilhação. Normalmente, ocorre a ingestão da urina e, em certos casos, o homem pode penetrar a vagina ou o ânus da mulher e urinar lá dentro.

Lógico, essa é uma divisão a título de esclarecimento, pois, na hora, as coisas podem se confundir – tudo depende do casal. Foi o que aconteceu com o administrador de empresas Silva, 28 anos, também de São Paulo: “nós tínhamos acabado de ter uma transa louca [...]. Então, disse pra ela que estava a fim de urinar e ela falou: ‘faz aí mesmo’. Urinei na barriga e na boceta, e o tesão foi tão louco, que logo começamos a transar novamente”.

Ah, sim, e vale dizer que tanto o homem quanto a mulher podem se dar ao luxo de receber a chuva. Há casais que trocam de posição com certa frequência.

Guarda-chuvas

Em termos de saúde, como dissemos, a urina não representa um risco em si, mas, em certas ocasiões, pode ser perigosa. O HIV não é transmitido pela urina, pois, assim como na saliva, existe em quantidades ínfimas – seriam necessários litros e litros.

Entretanto, há doenças que podem ser transmitidas dessa forma. A gonorreia, por exemplo, pode ser contraída, uma vez que o micro-organismo que a causa “vive” na uretra. E, se houver sangramentos no canal, muitas outras doenças podem ser transmitidas, inclusive o HIV/Aids.

O parceiro que urina deve estar, então, com a saúde em dia, mas, mesmo assim, o risco existe mais se houver ingestão ou se o ato de urinar for feito dentro do ânus ou vagina, o que é, claro, exige que o casal se abstenha da camisinha – e o risco aumenta se tiver havido gozo antes.

Apenas urinar na pessoa, sobre a pele (desde que não sobre ferimentos) é uma prática de baixíssimo risco, e, em termos de segurança, é o que recomenda a Comissão Nacional de Aids.