REPORTAGEM

Pau que nasce torto... Às vezes, endireita

Nem todo pênis é reto, mas há limites. Se você observa uma curvatura que não havia antes no dito-cujo, com ou sem presença de dor cuidado: podem ser os primeiros sintomas da doença de Peyronie. A boa notícia é que ela tem solução.

por Deco Ribeiro

François Gigot de la Peyronie (1648-1747) era médico pessoal do rei Luís XV, da França, e fundador da Academia Real de Cirurgia Francesa. Em 1743, ele descreveu pela primeira vez uma doença que acometia um paciente ?com pequenas marcas de cicatriz no pênis, fazendo com que este se curvasse para cima?.

A tal doença, que levou o nome de doença de Peyronie, é caracterizada por essa curvatura durante a ereção ? que passa de 30 graus (curvatura considerada normal) e pode atingir até 90 graus, para cima, para baixo ou para um dos lados. Em casos mais graves, pode haver até dois desvios.

Apesar de nem sempre aparecer associada a dores, a curvatura pode ser tanta que impossibilita o ato sexual. O problema atinge cerca de 3% a 6% dos homens, de todas as idades, mas se concentra na faixa dos 40 aos 65 anos.

QUEBRA, SIM

Pau não quebra porque não tem osso, certo? Errado. A hipótese mais aceita para o surgimento da doença de Peyronie é justamente algum trauma, alguma batida que o pênis tenha sofrido e cuja cicatrização tenha repuxado o tecido interno.

O que difere a doença de uma curvatura normal é o fato de que, por mais torto que seja o pênis, quando a curvatura é natural, ela ocorre na base e o membro se apresenta intacto ao toque. Na doença de Peyronie, a curvatura pode começar a se formar no meio e é possível sentir um nódulo mesmo com o pênis flácido (em 70% dos casos).

Isso acontece porque os corpos cavernosos? duas cavidades na parte superior do pênis que se enchem de sangue e se dilatam, causando a ereção ? são envolvidos por uma membrana elástica, a túnica albugínea, que normalmente se expande e se alonga simetricamente durante o processo.

Se há algum rompimento, o tecido elástico da túnica é substituído por uma cicatriz rígida ? e, durante a excitação, aquela área não se dilata mais. Consequentemente, o pênis se inclina para o lado da lesão.

Essa lesão pode ser mais comum em diabéticos e em pessoas com predisposição genética à formação de cicatrizes, mas não ocorre de uma vez: depende de pequenos e repetidos traumas na mesma região, que podem ser causados, por exemplo, por uma insistência em praticar o sexo em uma posição desconfortável para o pênis ou por fazê-lo com o membro não totalmente ereto ? e por ?praticar o sexo?, entenda-se vaginal ou anal, hétero ou homossexual.

?O trauma na membrana [...] ocorre também nas relações anais?, diz o urologista Dr. Paulo Egydio. ?O ânus pode até facilitar o trauma, por não ter uma boa lubrificação. Para prevenir, é recomendado usar sempre preservativos lubrificados e associar lubrificantes à base de água?.

Segundo o especialista, a posição sexual de maior risco é com o ativo deitado e o passivo sentando por cima (a popular ?cavalgada?), já que o ativo deixa de controlar a intensidade dos movimentos, mas ?mesmo a masturbação, se for traumática a ponto de forçar o pênis, também poderá desencadear o Peyronie?.

TRATAMENTO
O tratamento pode se dar de várias maneiras, dependendo do estágio do paciente. Se, logo no início da lesão, o paciente já sentiu dores e procurou um especialista, o tratamento pode ser clínico e por via oral, à base de antiinflamatórios ou vitamina E.

Essa fase inflamatória caracteriza-se por uma curvatura progressiva, que pode estar associada ou não à dor durante as ereções. A cicatriz pode ainda nem ser palpável. Para que o tratamento clínico tenha bons resultados, o diagnóstico precoce é importante.

Na segunda fase, a cicatriz já está definida e a curvatura, bem acentuada. A cirurgia é, então, recomendada e apresenta os melhores resultados. Uma das técnicas utilizadas é retirar pele do outro lado do pênis, mantendo os dois lados simétricos, ainda que mais curtos. ?Esse encurtamento resolve o problema, mas o paciente não fica totalmente satisfeito?, diz o Dr. Paulo Egydio.

Já a técnica preferida por ele consiste em retirar a cicatriz, o nódulo, e aplicar um enxerto orgânico (de pele) ou sintético (que permite que a pele cresça e o recubra). ?Com essa técnica, consegue-se o máximo possível em termos de tamanho peniano nesse tipo de procedimento cirúrgico?.

A recuperação é rápida. O paciente interna-se pela manhã, é operado no mesmo dia e recebe alta, no máximo, até o dia seguinte. Se for em um fim de semana, ele pode voltar a trabalhar ou estudar na segunda-feira, sem ter de dar nenhuma explicação ?constrangedora".

ASPECTOS PSICOLÓGICOS

Ao longo da história, o pênis, além de ser o órgão sexual masculino, tem representado poder, virilidade e prazer. Em muitas culturas, é idolatrado e desempenha um papel central nas cerimônias de iniciação para a vida adulta ou para uma nova vida.

Polêmico, Freud ia além e dizia que toda mulher tem inveja do pênis ? mas a verdade é que problemas nessa região, na cabeça de baixo, podem afetar seriamente a de cima.

?A vergonha do próprio corpo e a repressão desse sentimento pode levar o indivíduo a uma ansiedade crônica?, explica o Dr. Egydio. ?Isso pode gerar grande estresse e estender-se para áreas não diretamente ligadas à sexualidade, atrapalhando o indivíduo em seu trabalho, nos relacionamentos sociais e até na superação de pequenos problemas do cotidiano?. É, meu camarada, o seu melhor amigo é um só. Cuide bem dele ? e não tenha medo de visitar sempre o urologista.

Imagens: Reprodução (www.uroatlas.net/ www.peyronie.com.br)

 


Publicado em 19/05/2011.