SAÚDE

Gel anti-HIV

Após primeira fase de testes novo produto se mostra seguro, porém seu sucesso ainda não é garantido 

por Ana Luiza Ribeiro

Uma boa notícia no front da luta contra a AIDS: uma formulação em gel contendo o antirretroviral tenofovir projetada especialmente para o uso anal foi considerada segura após uma primeira fase de testes realizada pelo Instituto Nacional da Saúde dos Estados Unidos. Os dados foram anunciados pelo MTN (Microbicide Trials Network) na 19ª Conferência sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas (CROI, na sigla em inglês), realizada em Seattle, Estados Unidos, no último dia 8 de março.

Espera-se que o gel contendo 1% de tenofovir adaptado para a mucosa do reto seja, no futuro, um aliado na prevenção à infecção pelo HIV. Afinal, o sexo anal é mais comum do que se imagina e, desprotegido, tem de dez a 20 vezes mais chances de transmitir o vírus do que o sexo vaginal sem proteção, segundo dados da Organização Mundial da Saúde.

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GEL VAGINAL E GEL ANAL

A ideia de se fabricar um gel anal surgiu a partir dos animadores resultados do estudo CAPRISA-004 liderado pelos pesquisadores Abdool Karim Salim e Quarraisha Abdool Karim, ambos da Universidade de KwaZulu-Natal, na África do Sul, desenvolvido com 889 mulheres da África subsaariana, que usaram um gel vaginal contendo 1% tenofovir antes e depois das relações sexuais por um período de 30 meses, com acompanhamento mensal. A África subsaariana, região do continente africano a sul do deserto do Saara, conta com 60% do total de portadores do HIV no mundo – e, em julho de 2010, o CAPRISA-004 apontou que o composto conseguiu evitar a infecção em 39% dos casos, além de obter resultados satisfatórios na proteção contra o herpes genital.

Testar a hipótese para o sexo anal era questão de tempo – e foi o que fez o pesquisador Ian McGowan pesquisador da Universidade de Pittsburg, que, num primeiro estudo, contou com homens e mulheres que usaram a mesma fórmula do gel vaginal na região anorretal.

A pesquisa, no entanto, demonstrou que o uso daquela fórmula no reto foi associado a taxas mais elevadas de problemas gastrointestinais, e a alta concentração de glicerina no gel levou a alterações significativas no equilíbrio de substâncias químicas dentro e fora das células da região.

Agora, o estudo MTN-007 demonstrou que uma nova fórmula, com menos glicerina, é segura para o trato retal. O composto alterado foi testado em um grupo de 65 homens e mulheres em três pontos diferentes dos Estados Unidos – todos HIV-negativos que tinham se comportado como passivos no sexo anal por pelo menos uma vez no ano anterior. Os voluntários concordaram em ficar em abstinência sexual de quatro a oito semanas e foram separados em quatro grupos.

O primeiro grupo não usou qualquer gel; o segundo recebeu um gel inativo; o terceiro recebeu o gel com tenofovir; e o último recebeu um espermicida contendo 2% de nonoxinol-9, creme que previne algumas DSTs. Apenas 18% dos participantes apresentaram efeitos colaterais significativos e aproximadamente 90% dos que usaram o gel com tenofovir disseram que voltariam a utilizá-lo futuramente.

Ian McGowan declarou que os resultados mostraram que a versão adaptada ao reto do gel com tenofovir foi bem mais tolerada do que a fórmula vaginal inicialmente testada.

FUTURO INCERTO

Nem tudo, porém, são flores. Os resultados do estudo CAPRISA-004 para o gel vaginal usado antes e depois do sexo foram contrariados por outro estudo, o VOICE, que buscava detectar se o uso diário do mesmo gel conferia proteção contra o HIV.

O VOICE contou com a participação de 5.029 mulheres sexualmente ativas e HIV-negativas da África do Sul, Uganda e Zimbabué, mas acabou por concluir o uso de gel diário não conferiu a esperada proteção. A pesquisa foi suspensa diante da prevalência de 6% de infecção entre as mulheres que participaram do estudo.

Os resultados do VOICE e os porquês desse revés ainda estão sob análise e deverão ser divulgados nos primeiros meses de 2013. No entanto, segundo o Microbicide Trials Network (MTN), os estudos continuarão a avaliar a segurança e a eficácia do gel com tenofovir.

Reprodução Enquanto isso, as pesquisas com a fórmula anal prosseguem. Agora que se sabe que o gel é seguro, na próxima fase, cerca de 200 homens que fazem sexo com homens e mulheres passarão por testes clínicos que estão previstos para começar no próximo semestre a fim de determinar a aceitabilidade da formulação retal e sua real eficácia.

Embora haja esperança de um gel anal eficaz, existe, porém, a possibilidade de que a fase II resulte em uma conclusão negativa, como no VOICE. Por isso, o lance é esperar – e, enquanto isso, não se descuidar da forma mais eficaz para evitar o HIV: o uso da camisinha

 


Publicado em 27/03/2012. Imagens: Reprodução