PERFIL

Gregory Dark: o mestre das perversões

O período entre as décadas de 70 e 80 ficaram conhecidos, até hoje, como a "Era de Ouro" do cinema pornô. Foi quando os filmes hardcore ou X-rated se tornaram um dos ramos mais lucrativos na indústria do entretenimento e lançaram diversos nomes ao estrelato...

por Marcos Piovesan

Reprodução: © Michael Buckner/Getty Images Entertainment O diretor Gregory Dark, formado em Artes pela Universidade de Stanford, faz parte desse nicho de estrelas que ficaram para a história. Considerado por muitos o “mestre das perversões”, virou do avesso os vídeos de sexo explícito com o clássico New Wave Hookers (1985), quando apresentou, pela primeira vez, a dupla Dark Brothers e atrizes e atores lendários, como Traci Lords, Ginger Lynn, Jamie Gillis, Peter North e Tom Byron.

EVOLUÇÃO E CRUZAMENTO
Talvez um dos fatores que mais ajudaram a evolução dos filmes pornôs tenha sido a migração de pessoas que vieram de outras áreas artísticas e somaram seus conhecimentos ao gênero.

John Leslie, pintor e músico; Jamie Gillis, professor de literatura e ator teatral; Bruce Seven, técnico de efeitos especiais em filmes convencionais; ou mesmo Alex Perry, codinome pornô de Alessandro Perrela, italiano com invejável currículo no cinema convencional são alguns deles. No entanto, poucos foram os profissionais que fizeram o caminho inverso: do pornô ao cinema convencional, como Gregory Dark.

Nascido em Los Angeles, Califórnia, no dia 12 de julho de 1957, Gregory Hippolyte Brown cresceu em Las Vegas, onde sua mãe era dançarina, sempre rodeado de mulheres nos camarins. Ele é um caso interessante: iniciou sua carreira no mundo das artes como artista plástico, trabalhando com pintura, arte conceitual e instalações.

Ainda na faculdade, morou numa região cheia de prostitutas de rua e seus cafetões negros, e talvez sob influência desse contato direto, não foi difícil para ele entrar na indústria de filmes adultos, da qual se aproximou ao produzir documentários sobre ela.

Após se formar, ele se mudou para Nova York, onde cursou pós-graduação em cinema. Foi quando produziu dois documentários para a tevê a cabo, um dos quais é Fallen Angels (1985), no qual entra fundo nos bastidores dos filmes adultos na Califórnia.

Vem daí a decisão de fazer seus próprios filmes, cujo objetivo era mostrar o “sexo de verdade”, procurando fugir da “interpretação de prazer” que muitos diretores da época usavam. Entre meados de 1980 até 1990, Dark produziu e dirigiu diversos trabalhos pornográficos. Seu estilo transformava os homens nos filmes em criaturas bizarras, como palhaços e animais, elevando ao máximo o poder das mulheres em cena, sempre lindas e com grande apetite sexual.

Seus trabalhos influenciaram definitivamente o pornô e os diretores futuros. Sexo anal, por exemplo, não era muito comum nos filmes norte-americanos naquela época, mas Gregory Dark sempre explorou a prática ao máximo – talvez um pouco para chocar e mais ainda para marcar seu forte estilo.

New Wave Hookers, sua obra-prima, teve o elenco escolhido a dedo e contou com profissionais no auge da carreira. Gravado em película, chegou a influenciar a linguagem dos videoclipes, que ainda estavam na infância. O filme bombardeia nossos olhos com todo tipo de imagem sexual das mais sujas e coloca os atores Jamie Gillis e Jack Baker no começo da história contando piadas sobre a pornografia, bem ao estilo do que surgiria muitos anos depois com Beavis & Butt-Head, da MTV.

Os dois atores interpretam dois “fodidos” que gostariam de se tornar grandes cafetões. Quando dormem em frente à tevê, sonham com encontros sexuais em que as mulheres se tornam “putas” na cama depois de ouvirem a música New Wave. Infelizmente, a versão original foi retirada de circulação nos EUA um ano depois, quando descobriram que Traci Lords era menor de idade.

Na companhia VCA, Dark conheceu Walter Gernet que se tornou seu parceiro em muitas produções. Surgia a dupla Dark Brothers, os cafetões brancos, fórmula que funcionou durante alguns anos – mas o talento do diretor também foi aproveitado pela indústria de Hollywood.

Divulgaçã

CINEMA TRADICIONAL
Dark foi um dos poucos cineastas de filmes adultos que obteve sucesso na transição para os filmes tradicionais, nos quais também trabalhou como diretor, produtor e roteirista. Entre 1987 e 1995, produziu filmes de ação e "thrillers eróticos" como chefe de produção para a Films Axis – entre eles, alguns filmes softcore, como Crimes do desejo (Carnal Crimes, 1991) e Instinto Animal 3 (Animal Instincts 3), usando os conceitos de film noir e dos primeiros trabalhos feitos por Hitchcok, evidenciando muito mais a sexualidade de tais produções.

Em seu vasto currículo, cabe citar também a direção de mais de 150 clipes para bandas como Melvins, Jesus Lizard, Linkin Park e figuras conhecidas como Snoop Dogg e  Britney Spears, o que lhe rendeu algumas indicações e prêmios no MTV Video Music Awards, BET e Billboard.

No cinema convencional, são mais de 30 filmes. Seu primeiro grande foi, sem dúvida, o terror Noite de Terror/Colecionador de Ossos (See no Evil, 2006), escrito por Dan Madigan e produzido por Joel Simon, que arrecadou mais de US$ 40 milhões.

Em seu currículo, há filmes como Amigo da Onça (Little Fish, Strange Pond, Frenemy), de 2009, estrelado por Matthew Modine, Adam Baldwin, Callum Blue, Zach Galifianakis e Liza Weil. Em 2009, dirigiu An Evening With Stephen Lynch, um filme-concerto protagonizado por um comediante.

No Brasil, o canal SBT exibiu a polêmica série Oz sob sua direção, produzidas pela HBO entre 1997 e 2003, teve seis temporadas mostrando o cotidiano violento da prisão Oswald, incluindo temas fortes como sexo, violência, pena de morte, religião, preconceito e drogas. Em muitos de seus trabalhos nessa transição, o diretor pode ser creditado como Gregory Dark, Gregory Brown, Gregory Hippolyte, Alexander Hippolyte ou Dark Brothers. Nada mal para um fã de sexo extremo, não é?


Publicado em 13/03/2012. Imagens: Reprodução: © Michael Buckner/Getty Images Entertainment e Divulgação.