ARTIGO
 

Hentai: prazer em revista

por João Marinho

Pense num estilo de desenho pornô, leitor. A menos que você tenha conhecido os “catecismos” de Carlos Zéfiro, as primeiras imagens que virão à cabeça serão os hentais: desenhos com traço típico japonês, mulheres tesudas e corpos violados por pênis, tentáculos e outros instrumentos!


O Japão tem uma cultura milenar, e, como tal, suas práticas muitas vezes guardam significados profundos difíceis de apreender à primeira olhada. É assim com os mangas, certamente a produção artística japonesa mais famosa do lado de cá do mundo. O formato, você deve conhecer: revista em quadrinhos, equivalente às nossas HQs, que são lidas de trás pra frente.

Certo, e o que isso tem a ver com pornografia? Muita coisa! Afinal, aquelas imagens que nos deliciam na internet, com gatas peitudas, chanas úmidas e penetrações hardcore – a que damos o nome de hentai – têm sua origem diretamente ligada aos mangás.

Gigantes do sexo
No Japão do século 17, a capital passou a ser a futura cidade de Tóquio, então chamada de Edo.

Centro urbano, Edo ostentava uma significativa população jovem e masculina. Junte-se a isso o fato de que a tradição valorizava a timidez e o recato da mulher, e você tem um público fértil para o mercado do sexo.

Na época, surgiu e progressivamente se tornou popular uma arte denominada ukyo-e: tipo de xilogravura delicada e apurada que posteriormente inspiraria o impressionismo francês.

>ShungaO que muitos não sabem é que, por trás dessa delicadeza, havia algo mais “pesado”: o shunga, variante pornô do ukyo-e que, acredita-se, foi inspirada nos antigos manuais médicos chineses.

Os shungas costumavam retratar cenas picantes e órgãos sexuais em proporções agigantadas – e se disseminaram pelo país. Muitos homens vinham de outras localidades trabalhar em Edo. Lá, aprendiam a sacanagem e a levavam na bagagem.

Tesão, olhos e Mickey Mouse
O que hoje nós conhecemos por mangá é uma invenção do século 20, mistura de ukyo-e e influências ocidentais que se fizeram presentes a partir da Era Meiji (1868-1912), quando o Japão rompeu seu isolamento de séculos.

Esse tipo de publicação recebeu forte influência do artista Osamu Tesuka (1928-1989), que, em 1947, lançou o primeiro mangá moderno, a saga Nova Ilha do Tesouro, publicada em livro. É dele, por exemplo, o costume de dotar os personagens com olhos grandes, influência direta de Mickey Mouse, de quem era fã!

>Antes de Tesuka, porém, já havia produções que podemos incluir num estilo mangá de ser. Nesse sentido, o mangá mais antigo já encontrado é o Tobae Sankokushi (1702), de Oka Shumboka.

Entretanto, o termo “mangá” (que significa literalmente “desenhos aleatórios”) surgiu apenas no início do século 19, cunhado por Katsuhika Hokusai, famoso artista de ukyo-e que também produzia pornografia. A palavra foi usada na publicação Hokusai Manga, que trazia desenhos provenientes do livro de rascunhos do autor.

O detalhe é que, na época de Hokusai, o que hoje chamaríamos de mangá fazia mais jus à tradição dos shungas do que a qualquer outra, retratando mulheres como verdadeiros objetos sexuais, disputados, cobiçados e usados.

Tentacle rape

Depravação à japonesa
O leque de temas foi progressivamente ampliado – mas é claro que, com todo o peso que o sexo já tinha adquirido, os mangás modernos não ficariam incólumes. Assim, surgiram os hentais, netos dos shungas.

Com o desenvolvimento do cinema de animação (animes) e dos videogames, atualmente os hentais não se restringem aos mangás: você pode curtir um vídeo ou jogar um game cujo prêmio é uma tremenda gostosa.

No Japão, porém, a palavra “hentai” é usada para descrever algo “anormal” ou “pervertido”. O uso que fazemos dela é restrito ao Ocidente – no Japão, as mesmas produções pornôs são designadas por temos como ju hachi kin (“proibido para menores de 18 anos”), H anime ou H manga, eroanime ou seinen (“adulto”).

Os hentais – vamos adotar o significado ocidental – geralmente mostram mulheres comuns, tímidas e recatadas, que, por algum motivo, se envolvem em um encontro sexual do qual não conseguem escapar, seja pela sedução de um homem desconhecido, seja por meio de um estupro!

Por sinal, uma das principais características de um hentai é o extremismo. Bukkake (vários homens gozando na cara de uma mulher), gang bang, sexo anal hardcore e bondage são frequentes. Muitos incluem mulheres-animais, incesto, hermafroditismo, mutilação, deformidades, coprofilia, chuva dourada e até pedofilia.

Curiosamente, tudo isso tem relação com a censura e as convenções sociais. Ao longo da Era Meiji, a publicação de material pornográfico declinou devido a pressões do governo. A pornografia em desenhos foi para o submundo, emergindo mais liberta nos períodos Taisho (1912-1926) e Showa (1926-1989) da História japonesa, graças a um movimento denominado Eroguronansensu.

Na Segunda Guerra, tudo foi banido, mas recuperado posteriormente e com novo impulso graças ao afrouxamento da censura e à influência ocidental.

O contato com o submundo e o “lado negro”, porém, já tinha marcado a pornografia japonesa, ao mesmo tempo em que certas práticas, como os , surgiram especialmente para driblar a censura. Aliás, Tentacle rapes nada mais são que estupros de donzelas por monstros dotados de tentáculos. Tudo porque a censura proibia a imagem do pênis em ação...


Imagens: Reprodução/Divulgação