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HIV/AIDS: PENSE NISSO


Por Deco Ribeiro


Apesar de todos os esclarecimentos, muita gente ainda acha que HIV/Aids é “coisa de gay”. É uma pena, pois a desinformação tem feito com que a incidência de casos entre homens e mulheres heterossexuais aumente de forma preocupante.



No início dos anos 80, a Aids era considerada pelas massas como um problema de gays, usuários de drogas injetáveis e profissionais do sexo – e, em menor escala, hemofílicos e pessoas que necessitavam então de transfusão sangüínea. Eram os chamados “grupos de risco”.

Como pelo menos três desses grupos eram marginalizados e ensejavam preconceitos sociais, as respostas da sociedade como um todo não vieram com rapidez. Por conta disso, essas comunidades tiveram de se mobilizar por conta própria nos primeiros anos. Da parte dos homossexuais, segundo a coordenadora do Programa Municipal de DST/Aids de Campinas/SP, Cristina Ilário, vieram as primeiras mobilizações para enfrentar a doença, que, então desconhecida, matava amigos, amantes e pessoas próximas. Nascia, assim, no Brasil, a cultura da camisinha.

No entanto, como, para a maior parte da população, a Aids ainda era vista de longe, pela televisão, como problema de grupos marginais, muitos heterossexuais, lá, no início do problema, ficaram fora disso.

Antes da emergência da idéia de comportamento de risco, essa constatação se tornou uma verdadeira bomba-relógio, cujos resultados infelizmente seriam vistos anos depois.

Mulheres: vítimas em ascensão

O último boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, publicado no final do ano de 2007 e com dados até o primeiro semestre daquele ano, constata que, de 1980 até 2007, foram registrados 314.294 casos de Aids em homens e 159.793 em mulheres. A diferença parece gritante, mas, ao analisar a razão por sexo (Homem:Mulher), percebemos que ela vem diminuindo. De 15 homens para cada mulher em 1986, temos 15 homens para cada grupo de 10 mulheres em 2005 – ou 1,5 homem para cada mulher soropositiva.

Infelizmente, isso significa que, cada vez mais, a proporção de mulheres vivendo com HIV/Aids na população aumenta. Na verdade, um crescimento de 44%, no período de 1995 a 2005.

Na faixa etária de 13 a 19 anos, já houve uma inversão na razão de sexo a partir do ano de 1998. Em 2005, temos, para cada grupo de 6 homens jovens vivendo com o vírus, 10 mulheres.

Tirando alguns poucos casos de transmissão via uso de drogas – os sistemas de transfusão de sangue hoje são bastante seguros – cerca de 90% das mulheres são infectadas por via heterossexual. O boletim sequer menciona a categoria homo/bissexual em se tratando do sexo feminino.

Homens héteros: crescimento acelerado

Se, entre as mulheres héteros, o quadro preocupa, entre os homens, não é diferente. Segundo o boletim, o número de casos de transmissão do HIV por via homo e bissexual tende, no geral, à estabilidade: por volta de 17% e 10%, respectivamente, desde o ano 2000. Analisando o período entre 1995 e 2007, os casos de transmissão entre gays acumulam uma queda de 14,5%.

No entanto, o crescimento entre homens heterossexuais tem assustado. Em 1996, a maior parte dos doentes já havia adquirido o vírus por relações com pessoas de sexo oposto.

No total, entre 1995 e 2007, houve um aumento de mais de 80% da exposição heterossexual, no geral. Na população jovem, de 13 a 24 anos, o aumento na proporção do número de casos de transmissão por via heterossexual bate nos 250%.

Vetores

Uma das dúvidas que certamente deverá rondar a cabeça do leitor é se todos os heterossexuais citados no boletim têm realmente essa orientação.

“O sistema que monitora os casos de HIV/Aids no Brasil registra o que o paciente afirma. Os que aparecem como tendo adquirido o vírus por via heterossexual simplesmente se colocaram como tais.

No entanto, não é possível auferir que as pessoas não tenham mantido relações com, por exemplo, alguém do mesmo sexo, travestis, ou mesmo participado de orgias sem proteção com mulheres, utilizado drogas, etc.

Talvez encontremos algumas respostas analisando, mais uma vez, os dados referentes à juventude. Nos últimos anos, têm crescido os casos de HIV/Aids entre garotas heterossexuais e garotos homo e bissexuais, apesar da tendência de estabilidade no quadro geral para estes últimos (i. e., para a totalidade de casos entre homo/bissexuais). Governos e ONGs esforçam-se para promover campanhas de sexo seguro a esses dois grupos, na tentativa de frear os números.

No entanto, há um outro dado. Com quem as garotas héteros mantêm relações? E com quem muitos garotos que se descobrem homo ou bissexuais têm suas primeiras relações?

Muitos parceiros tanto de um grupo quanto de outro são homens jovens, que se identificam, em sua maioria, como heterossexuais. Portanto, cremos, também se deve intensificar nesse grupo uma luta contra a expansão do HIV/Aids.

Consciência já!

Enquanto isso não acontece como parte de campanhas públicas – ou, pelo menos, na freqüência ou intensidade ideais –, é preciso que homens heterossexuais como o leitor, especialmente os jovens, se estimulem a usar a camisinha em todas as relações, seja com as meninas ou experimentando com meninos.

O que não podemos admitir é que o preconceito ou a falta de informação impeça os brasileiros de darem uma resposta mais eficaz ao desafio contra o HIV/Aids. Por isso, não se esqueça: camisinha sempre e ajude a mudar essas estatísticas.


Deco Ribeiro, 36 anos, é jornalista, professor universitário e Conselheiro Municipal de Saúde em Campinas/SP.