O império dos sentidos

por João Marinho

Sexo, obsessão e fetichismo em uma obra de arte do Sol Nascente


Prolífero escritor contemporâneo da Revolução Francesa, o Marquês de Sade foi também arrolado entre os malditos. Tanto que há, por exemplo, pouquíssimas obras suas disponíveis na língua portuguesa.

Mesmo assim, sua importância não pode ser negada. Ousado, Sade trabalhou com o “lado sombrio” do ser humano e adiantou ideias que seriam, mais tarde, trabalhadas por Freud e sua psicanálise.

Junto com autores como Leopold von Sacher-Masoch, Sade demonstrou que o limite entre prazer e dor é mais estreito do que se imagina – e pode chegar à morte. A psicanálise teria conclusões semelhantes.

A filósofa Marilena Chaui, no livro Convite à Filosofia, esclarece: “Freud considerava extremamente perigoso liberar o id*, as pulsões e o desejo, porque a psicanálise havia descoberto uma ligação profunda entre o desejo de prazer e o desejo de morte”.

Morte e prazer. Violência e tesão. O cinema também não ficou para trás na exploração desses pares. Dirigido por Nagisa Oshima, o filme O Império dos Sentidos (“Ai no Korida”, 1976) talvez seja uma das obras mais bem acabadas nesse sentido – e, por incrível que pareça, se baseia em uma história real.

A ex-prostituta Sada Abe tornou-se famosa nas crônicas policiais japonesas ao sufocar seu amante, Kichizo Ishida, durante o sexo, em 1936. Não foi um crime praticado à inteira revelia da vítima, mas o desfecho de uma relação obsessiva que levou os dois aos extremos.

Depois de matar Ishida, Abe cortou-lhe o pênis e os testículos e vagou três dias pelas ruas de Tóquio em indizível felicidade. Foi presa, condenada e solta quatro anos depois, por conta das comemorações dos 2.600 anos do reinado de Jimmu, considerado o primeiro imperador do Japão. Mudou de nome, casou-se, mas foi abandonada quando o marido descobriu sua identidade. Depois, estrelou alguns filmes, sumindo misteriosamente em 1970.

A relação de Abe, uma empregada de hotel nos anos 30, e Ishida, casado e dono do estabelecimento, é o foco do filme de Oshima. Com uma narrativa ritualizada e marcada pela sensualidade, O Império dos Sentidos prende o espectador e se afirmou como uma das principais obras de arte do cinema japonês moderno. A temática do sexo, inclusive, pode ser lida como uma crítica à opressão, evidente em um Japão que se preparava para a Segunda Guerra.

O filme também chama a atenção por utilizar o sexo explícito (isso mesmo!) de forma poética. Chegou a ser banido do New York Film Festival, teve de ser rodado em locações francesas devido à censura japonesa e demorou anos para aparecer no Brasil – mas que obra de arte não causa polêmica? Hoje, é possível encontrá-lo em DVD no mercado nacional, com extras. Arigatô.

O Império dos Sentidos (Ai no Korida)
Ano:
1976
Direção: Nagisa Oshima
Local: França/Japão
Elenco: Tatsuya Fuji, Eiko Matsuda, Aoi Nakajima, Yasuko Matsui, Meika Seri.


*uma das três instâncias de nossa psique, correspondente às pulsões e desejos inconscientes. As duas outras são o superego (“a polícia interna moral”) e o ego (consciência propriamente dita).