ARTIGO
 

Jack Tyler e o pornô-arte

Graças aos céus! Parece que o pornô está saindo do mar de mediocridade em que, na minha opinião, mergulhou pelo menos desde o ano 2000!

por Valter José

Mais ou menos por essa época, tornou-se dominante o chamado “sexo hard”, ou seja, vídeos realizados por diretores como Jake Malone, Nacho Vidal e outros que, para mim, só sabem fazer a mesma cena, que se repete a cada vídeo.


Cena do filme 'Le Démon' (2000)

Nova geração

No entanto, tem surgido uma nova geração de diretores – e também de diretoras – que, a meu ver, é mais inteligente, mais bem-informada e, o que é importante, possui uma ótima cultura pornô: conhece todos os grandes mestres, como Stagliano, Alex DeRenzy, John Leslie e Mario Salieri. É também uma geração cinéfila, que admira os grandes diretores de filmes de arte não-pornôs, como Fincher, Tarantino e outros – e é influenciada por eles.

O francês Jack Tyler é um legítimo representante dessa safra. Para começar, retirou seu nome artístico de um dos personagens do filme cult Clube da Luta. Crítico, Tyler reconhece o valor e a importância da genialidade de John Stagliano para o pornô, mas percebe que o estilo gonzo do mestre também criou imitadores medíocres, que, segundo ele, colocaram a Buttman em um beco sem saída.


Cena de 'Propriété Privée' (2004)

Realismo moderno

Talvez por isso, o francês faça um pornô mais natural, mais realista, em que os atores não são “bonecos mecânicos” que atuam como gorilas na jaula, a pedido do domador. Além disso, ao contrário de muitos diretores (entre eles, muitos brasileiros), Tyler não vê as atrizes como “putas idiotas”, mas como matéria-prima para suas cenas, ou como o que realmente conta em uma produção pornô.

O jovem diretor não chegou a completar dez anos de carreira, mas já enfrentou todas as dificuldades de um profissional muito experiente: a falta de inteligência dos produtores e a falta de dinheiro são duas das mais importantes – mas isso não o aflige tanto, porque, segundo ele, são os mesmos problemas por que passam os diretores de filmes de arte tradicionais.


Cena de 'Nuits Chaudes à Ibiza' (2006)

Sim, filmes de arte. Jack Tyler considera o pornô uma forma de arte. Tanto que Le Démon (2000), uma de suas obras, trata dos bastidores de uma produção pornô e foi ligeiramente inspirada em Noite Americana, de François Truffaut, e Fellini Oito e Meio, de Fellini. Já em Propriété Privée (2006), o francês faz Tiffany Hopkins e Phil Holliday transarem olhando um para os olhos do outro, como normalmente fazem os casais.

Além de dirigir ótimos vídeos, Tyler também quer desenvolver sua utopia – para ele, um idealista, o pornô deve defender uma moral, na qual os seres humanos devem se juntar em torno da comunidade e abandonar os hábitos egoístas e destrutivos.

Todo o pensamento de Jack Tyler está contido nesta frase: “O amor e a arte são as duas grandes possibilidades de salvação para o ser humano”. Trata-se de uma atitude típica de um pornógrafo do novo milênio.

PARA SABER MAIS: www.jack-tyler.net (site oficial em francês).

Imagens: Divulgação (www.ecranlarge.com), Reprodução (www.ecranlarge.com)/© Colmax e Reprodução (www.ecranlarge.com)/© V.Communications.