PERFIL

O Godfather do Pornô

Jamie Gillis foi o "senhor do pornô" por natureza. Em seus 67 anos de vida, pelo menos 30 deles foram dedicados ao sexo explícito como arte e comportamento. Foi ator, produtor, diretor e, sobretudo, foi Jamie Gillis, cuja presença dava às cenas espontaneidade e classe!

por Valter José

Seu nome verdadeiro era James Ira Gurman, judeu nova-iorquino, nascido em 20 de abril de 1943, que estudou arte dramática no colégio. Inteligente, ganhou uma bolsa de estudos para cursar literatura. Formado, acumulou as carreiras de professor e ator.

Além de Shakespeare, o futuro ator pornô se apaixonou pela obra do francês Marquês de Sade, que lia desde os 16 anos, e se aproximou bastante dos livros de poetas e escritores como Walt Whitman e Jack Kerouac. Porém, foi Henry Miller, autor de Trópico de Câncer, que se transformou no seu guru literário, principalmente pela capacidade de descrever as relações sexuais.

O primeiro papel de James foi em um longa-metragem pornô em 1971, mas, antes disso, ele já atuava em “loops”, filminhos de uma cena só para serem vistos em cabines por 25 centavos. Dessas produções amadoras e minúsculas, nasceu a hoje enorme indústria de filmes e vídeos pornôs.

O estilo de atuação de Jamie Gillis se impôs em filmes como The Opening of Misty Beethoven, de 1976, sob a direção de Henry Paris; , de 1984 (Insatiable 2), dirigido por Godfrey Daniels; e As Aventuras de Buttman, de 1989 (The Adventures of Buttman), dirigido por John Stagliano.

Em cena, Gillis tinha a elegância de um nobre como o Marquês de Sade, com uma certa distância irônica e misteriosa. Sua atuação com Marilyn Chambers em Sexo Insaciável 2, por exemplo, foi requintada, uma rapsódia de fetiche e sexo heterossexual, show de virilidade sem necessidade de excessos violentos, como é comum nos dias de hoje.

Entrou para o pornô graças também ao clima de liberação sexual dos anos 70 – e, como praticante da sexualidade recreativa e espontânea, foi se irritando com o caminho tomado pelo pornô norte-americano, que se tornava repetitivo e aborrecido, com atores quase robotizados.

Rebelde, resolveu ser produtor e diretor, gravando cenas envolvendo profissionais e amadores. Em On the Prowl, ele alugava uma limousine, chamava uma atriz, como Renée Morgan, e saía pelas ruas convidando homens para transarem com ela. Assim, Gillis é considerado também um dos fundadores do gênero gonzo.

Como o também hoje falecido John Leslie, ele foi um multitalento. Alguém cujo pornô foi uma escolha existencial, e não um abrigo para seu oportunismo. Se quisesse, poderia ser um ator de Hollywood e ficar rico. Chance teve, afinal Jamie Gillis atuou ao lado de Sylvester Stallone em Falcões da Noite – mas ele preferiu ficar do lado do sexo explícito, atuando e produzindo.

Sua única fortuna foram os amigos, a sorte de se relacionar com grandes mulheres, como Amber Lynn – com quem teve um longo relacionamento –, Tori Welles, Traci Lords,  Ginger Lynn e muitas outras. Assim, em 19 de fevereiro de 2010, quando seus olhos se fecharam pela última vez, Jamie Gillis partiu em paz – e, feliz, fez tudo que quis.

Imagem: Reprodução.



Publicado em 30/06/2011.