PERFIL

John Leslie: o eterno mestre

No dia 5 de dezembro de 2010, um post no Twitter noticiava a morte de John Leslie, a lenda do pornô, o que, logo depois, seria confirmado pelo site da AVN (Adult Video News). O pornô agora está mancando, sem uma das pernas do tripé: restam apenas Ron Jeremy e Nina Hartley, mas a perna mais elegante, inteligente e eficiente não existe mais...

por Valter José

Foram 30 anos dedicados ao pornô, mas o ator, diretor e produtor foi também artista plástico, ilustrador, fotógrafo, músico de blues (gravou um CD) e tinha também talento de chef: cultivava hortaliças em sua horta particular, e seu molho de espaguete “alla matriciana” mimava o paladar dos amigos nas noites de pôquer. Ah, sim, ele também foi um eficiente jogador de baralho!

HERANÇA PORNÔ
No pornô, Leslie foi sempre o melhor, atrás ou na frente das câmeras. Sua carreira começou nos anos 70, quando se salientou nos papéis de caras malandros, elegantes e bons de papo.

Leslie foi o ator predileto de diretores como Anthony Spinelli, com quem fez pelo menos cinco obras-primas, como Talk Dirty to Me (no Brasil, Palavras Proibidas), assim como valorizou obras de outros grandes diretores, como Henri Pachard, Alex de Renzy, Jeffrey Fairbanks e Billy Thornberg.

Depois de ganhar todos os troféus possíveis de Melhor Ator, John Leslie iniciou sua carreira de diretor em 1987, com Night Shift Nurses (Temperatura Máxima). Foi a primeira de uma série de incríveis obras-primas, como The Catwoman, em 1988 (Pantera Insaciável); The Chameleons, em 1989 (As Mil Faces do Desejo); Curse of the Catwoman, de 1992 (A Deliciosa Maldição da Mulher-Gato); e Chameleons - Not A Sequel, no mesmo ano (As Mil Faces do Desejo 2), filmado em 35 mm e com efeitos especiais, tipo cristal líquido, inédito em uma produção pornô.

Como diretor, Leslie fez o pornô progredir um pouco, graças às suas habilidades estéticas e também por ter aprendido com o grande Spinelli. Cinéfilo, trouxe para o segmento diálogos e tramas típicos do cinema convencional.

O maior destaque de seu trabalho, porém, estava na habilidade com que tratava as atrizes. Deusas, como Debi Diamond, Tori Welles e Ashlyn Gere, cresciam mais ainda. Novatas, como Selena Steele e Katherine Gentry, adquiriam personalidades gigantescas. Ele foi um grande observador da psicologia feminina.

ÚLTIMOS ANOS

Em 1993, Leslie se desligou da VCA e do patrão Russell Hampshire, que começou a se mostrar reticente com respeito à sexualidade intensa das produções. Foi o momento em que ele se juntou à Evil Angel, tornando-se um incrível renovador do estilo criado por Buttman.

Nas mãos de Leslie, o gonzo ganhou uma estética mais limpa, ótimo fundo musical (principalmente blues e jazz), locações magníficas e mulheres estonteantes. Foi quando ele passou a residir em Budapeste e se aproximou profissionalmente de Christoph Clark.

Mais uma vez, a genialidade do mestre se impôs. Séries como Voyeur e Fresh Meat fizeram também com que ele se cansasse de ganhar prêmios nos Estados Unidos e na Europa - sem contar o êxito comercial, já que ambos também eram líderes de vendas e locações.

Em 1997, John Leslie dirige a obra-prima Drop Sex, uma mistura de Godard com Alain Resnais, em que um homem (o ator Valentino) caminha por um labirinto erótico e violento.

Leslie também sabia como poucos criar situações de sexo e escrever bons diálogos. Sem contar que usava as técnicas de diretores como Orson Welles, Ridley Scott e Oliver Stone. Natural Born Killers era uma de suas fitas de cabeceira.

A partir de 2008, Leslie começou a mostrar sinais de cansaço. Não ficava mais na câmera e dirigia de longe pelo monitor - e já aparentava muito mais que os seus 65 anos, embora mantivesse a elegância e o sorriso largo e misterioso.

ESTILO E PRIVACIDADE
John Leslie sempre fez questão de se afastar do estilo orgiástico da comunidade pornô. Sua vida privada era protegida e distante. Poucos sabiam dela.

Afora isso, ele só aparecia em público por ocasião de algumas feiras eróticas ou na entrega dos Troféus AVN - e não era dado a entrevistas.

As melhores foram concedidas à revista brasileira Guia do Vídeo Erótico e à francesa HotVideo. Morreu e não deixa herdeiros de sua “ars erotica”.


Legendas:
1: John Leslie em uma feira erótica.
2: John Leslie em cena de Talk Dirty to Me.


Créditos das imagens:
1 - e também imagens ilustrativas em capa.php e revista.php: Reprodução/© Rick Hall
2: Divulgação


Publicado em 22/03/2011.