MATÉRIA

MULHERES DE VIDA NADA FÁCIL
Por Vicente Montanha
Engana-se quem acredita que o mundo da prostituição é feito de glamour e dinheiro. Sim, existem as prostitutas que se vendem por preços altíssimos e acompanham executivos em festas e viagens, mas a imensa maioria das garotas de programa são mulheres pobres e com histórias de vida bem complicadas.

De segunda a sexta, o despertador da casa de Claudia* dispara às 6h da manhã. Hora de levantar da cama como um foguete, dar banho na filhinha de dez anos e levá-la à escola. Duas horas depois, Claudia já está passando o crachá no relógio de ponto e começando as ligações na empresa em que trabalha como operadora de telemarketing. Nenhum colega de trabalho sabe nada sobre sua vida – muito menos que ela tem um segundo emprego... Início da tarde, 13h. Claudia sai correndo para pegar a filha na escola, deixa a menina na casa de uma vizinha, na região de Osasco onde mora e trabalha, e pega duas conduções até chegar a seu segundo emprego como prostituta em uma casa privê na região nobre de São Paulo, perto da Avenida Paulista...

Fuga e retorno

Mesmo sendo freqüentado por estudantes de classe média alta, jovens executivos e coroas endinheirados, os preços dos programas no local são baratos: cerca de R$ 40 por meia hora e R$ 60 por uma hora – e o valor é dividido entre a garota e a casa. Entretanto, graças à alta rotatividade de clientes, o dinheiro que Claudia recebe da cafetina que mantém o privê acaba sendo bem maior do que o salário que ganha na empresa de telemarketing no final do mês.

“Da empesa, recebo R$ 400 de salário mais seguro-saúde para mim e para minha filha, que é o que me interessa lá. Aqui [no privê], nos meses bons, eu tiro quase o dobro disso. Mesmo não gostando, é difícil largar esse trabalho. Tenho que pagar a escolinha da minha filha, o aluguel e mandar dinheiro para minha mãe – mas, um dia, vou sair dessa vida”, diz Claudia, uma loira bonita, 28 anos, oriunda de Londrina, interior do Paraná, e que mora em São Paulo desde os 18 anos, quando ainda estava grávida de sua única filha. Vinda de família bastante humilde, Claudia e os quatro irmãos foram criados pela mãe e por um padrasto, já falecido, com o qual ela não se relacionava muito bem: “Meu pai morreu quando eu tinha uns quatro anos. Não me lembro muito bem dele, mas era um homem bonito”.

Apesar da maneira confusa de se expressar e dos erros de concordância em algumas frases, Claudia diz que gostava de estudar, mas que abandonou a escola na 8ª. série, quando fugiu com seu primeiro namorado, pai de sua filha: “Eu estava cega e não percebi que ele era uma pessoa ruim. Fugimos de casa muito cedo e moramos de favor na casa de uns bandidos amigos dele. Quando fiquei grávida, ele pulou fora e mandou eu me virar, sumiu do mapa. Tive que voltar pra casa com o rabo entre as pernas, mas meu padrasto não deixou minha mãe me aceitar de volta. Mesmo assim, ela me deu uma grana que economizava, e eu vim para São Paulo”.

O começo como garota de programa

Claudia chegou a São Paulo com um mês de gravidez. Pensava em arrumar um trabalho decente, ganhar um dinheiro e fazer um aborto, mas seus pensamentos mudaram quando ela se apaixonou mais uma vez.

“Conheci o Matheus logo quando cheguei a São Paulo [...]. Eu morava numa pensão perto da Rodoviária Tietê, e ele sempre estava por ali. Nós nos apaixonamos. Ele trabalhava como feirante e me levou pra morar com ele em Osasco. Disse que ia cuidar de mim e da minha filha – e cuidou, até morrer em um assalto alguns meses depois que meu bebê nasceu”, revela, emocionada.

Sem dinheiro, com uma filha pequena e morando de aluguel, a única coisa que passou pela cabeça de Claudia foi se prostituir. Começou fazendo ponto perto da Cidade Universitária, mas a violência de alguns clientes e o medo da polícia a fizeram optar por trabalhar para uma cafetina, mesmo tendo de dividir seus lucros.

“Na rua é muito perigoso”, conta a loira. “Não passei por tantas coisas para morrer de bobeira. Tenho uma filha para criar. Poderia ganhar mais se trabalhasse por minha conta, mas prefiro assim. Ainda bem que conheci a Maria [cafetina]”, garante.

Ambiente de trabalho

O privê onde Claudia trabalha é um lugar como milhares que existem em São Paulo, seja em bairros de classe média ou alta, como Vila Mariana e Jardins, seja no Centro ou nas regiões mais periféricas.

A fachada é bem arrumada, pintada de vermelho. Basta tocar a campainha para entrar. Depois que a porta aberta, é preciso subir uma escada de uns 15 degraus até uma sala que tem um bar simples, um sofá velho e uma mesinha de centro. Aos poucos, as garotas vão descendo e se apresentando: “Oi, eu sou a Elaine”, diz uma moreninha vestindo uma microssaia e um topzinho. Na seqüência, aparecem outras. Todas se apresentam da mesma maneira: dizem o nome, dão um beijo no rosto e sobem para os quartos.

Com exceção de Claudia – que, muito simpática, atendeu o pedido da revista Sexsites –, nenhuma outra garota se prontificou a contar sua história. “As outras meninas da casa são muito novas e tímidas, inexperientes. Eu sou a mais velha aqui”, dizia nossa entrevistada, enquanto ouvia de outras garotas que era melhor ela ficar quieta.

Conversei com Claudia por 45 minutos, até que ela foi atender um cliente. Quando estava me despedindo dela e da cafetina, ouvi que mais uma garota queria conversar. Era Lizandra, uma morena magra e com o braço direito marcado por uma queimadura. “Não acredite em nada do que ela [Claudia] te falou. É tudo mentira”, disse, sem nem saber o que a colega tinha me contado.

Perguntei o que tinha causado aquela mancha no braço dela. Lizandra fechou ainda mais cara, levantou do sofá onde estávamos e desistiu da entrevista. A competição profissional nesse ramo é tão ferrenha quanto em qualquer outra área de trabalho. Fica claro que é difícil vender amor para quem não o tem nem para si mesmo.


*As garotas da reportagem não quiseram revelar seus nomes verdadeiros. Usamos os “nomes de guerra” que elas adotam na vida profissional.