PERFIL

Ovidie: pornô, filosofia e arte

Ela nem parece atriz pornô. É vegetariana, feminista militante, estudante de filosofia e conhecedora da boa literatura. Espírito crítico, fala o que pensa

por Valter José

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No ano de 1999, com apenas 20 anos de idade, Ovidie foi premiada com o Hot D’or em Cannes. Em pouquíssimo tempo, tornou-se uma celebridade e uma atriz pornô conceituada, devido ao filme que a premiou: La Fête à Gigi (Festa para Gigi).

Ainda na adolescência, já tinha assistido a mais de 200 filmes pornôs e tornou-se capaz de observar criticamente o papel da mulher nesse tipo de indústria.

OS PRIMEIROS PASSOS

Entre os seus primeiros vídeos, estão Les Coiffeuses (As Cabelereiras), Le Patron et L’Apprentie (O Patrão e a Aprendiz), Les Factrices Affranchies (As Carteiras Desavergonhadas) e Duplex Story (Histórias Sexuais em um Duplex), todos lançados pela Lucy Video.

Todas essas produções mostram uma Ovidie envolvida com os colegas de elenco, de modo a não se salientar em relação às outras atrizes.

Entretanto, a partir de obras como Les Secrétaires (As Secretárias), dirigida por Yannick Perrin, e Ally Et Xperiment (Experiências Sexuais de Ally), dirigida por John B. Root, a bela morena experimenta uma ascensão vertiginosa e passa finalmente a mostrar suas “garras”.

Não é à toa, depois que alguns desses filmes foram exibidos na rede de tevê a cabo Channel Plus, Ovidie conquistou a mídia – e, então, com menos de 20 filmes no currículo, colocou para fora uma inesperada rebeldia, misturada com muita inteligência e citações de escritores e filósofos.

UM CORPO QUE PENSA

Reprodução Ovidie tem um pensamento anarcopunk. Suas relações com os grupos radicais de extrema-esquerda franceses a levaram até a se envolver com o movimento norte-americano straight edge: uma turma inimiga do álcool e das drogas, muitas vezes vegetariana, famosa nos meios do punk e do hardcore de Los Angeles.

Definitivo, entretanto, foi o contato da musa com as ideias de Annie Sprinkle, uma hoje veterana atriz pornô norte-americana dos anos 60. Esse contato fez a francesa entrar para um set de gravação para impor suas próprias ideias e seu modo de ser.

Sua inteligência e originalidade a fizeram aparecer em várias entrevistas na televisão, até ser convidada a estrelar, ao lado de Jean-Pierre Léaud – ator francês dos filmes da nouvelle vague de Truffaut e Godard – em Le Pornographe (O Pornógrafo), premiado no Festival de Cannes.

LIVROS E EVOLUÇÃO

Com toda essa exposição e a atuação no cinema convencional, não demorou até que Ovidie conquistasse o mercado editorial com o livro Pornomanifesto, lançado pela editora Flammarion, ao mesmo tempo em que se irritava com a pornografia feita por homens para homens – e todos no mercado abaixaram a cabeça, afinal, tratava-se de uma atriz pornô com QI acima da média.

Ovidie também critica o feminismo assexuado em favor de um feminismo pró-sexo. São essas ideias que ela expõe em Pornomanifesto, já traduzido para o espanhol, alemão e inglês. A atriz e filósofa reivindica um feminismo que faz da mulher um ser livre sexualmente e socialmente.

Depois do livro, veio o convite para dirigir o seu primeiro filme pornô, Orgie en Noir (Orgia em Negro), um bom filme, mas que sofreu algumas críticas pela falta de sexo anal e pelo ritmo lento.

Sua segunda experiência foi com Lilith, personagem que, na antiga mitologia hebraica, foi a primeira mulher, antes de Eva, tendo sido expulsa do Paraíso porque se recusara a se submeter sexualmente a Adão. Segundo Ovidie, o filme “é a história de uma Lilith moderna que luta contra a opressão”.

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SEM PARAR

Mesmo como diretora, a morena permanece crítica. Entre seus alvos, está a obrigatoriedade da prática do sexo anal e a pressão do sexo sem preservativo – mas, acima de tudo, ela se irrita com o preconceito em relação às mulheres tatuadas e às obesas e com a tentativa, explícita ou não, de discriminar aquelas que não se enquadram no padrão “normal”.

Hoje, a gata já conta com alguns livros e artigos lançados, além de ter dirigido filmes e clipes. Sua carreira de atriz iniciou-se aos 19 anos e durou cerca de seis anos – de 2000 a 2005 – com participação em 26 filmes. Sua carreira de diretora perdurou um pouco mais – de 2000 a 2010 –, com sete filmes dirigidos.

Ovidie, a atriz (pornô e convencional), diretora, produtora, escritora, mãe de família e militante feminista é, sem dúvida, uma das mais apaixonantes figuras do pornô europeu – e ainda não mostrou nem metade de sua personalidade paradoxal e controvertida. Para ela, como disse um jornalista francês, um perfil só não basta: é preciso um romance com muitos capítulos.

PRAZER LÉSBICO

Em termos de pornografia, segundo a própria Ovidie, ela realmente se excitou apenas com o filme Hollywood Domination 3 (Dominação em Hollywood 3), que inclui cenas de sadomasoquismo light, e ao ver uma transa com Janine Lindemulder, famosa por ter feito pouquíssimas cenas com homens.

Para saber mais: http://www.pornomanifesto.com

 


Publicado em 10/05/2012. Imagens: Reprodução