OPINIÃO

Photoshop é ruim?

por João Marinho

Gente, depois que a foto da Preta Gil para a C&A saiu e ganhou o mundo, sendo corretamente criticada e ridicularizada tenho, é claro, observado exagero de pessoas que passaram, novamente, a demonizar o Photoshop, softwares similares (como o GIMP) e a edição de imagens. 
 
Entre elas, principalmente mulheres, a meu ver um tanto quanto em busca de vingança, talvez motivadas por baixa autoestima, inveja ou puro despeito, pelas modelos que ilustram capas de revista e que, segundo elas, "não são reais". O mote da vez é que "ninguém é perfeito" - e seu leitmotiv a presunção de que quem compra as revistas e se masturba com aquelas mulheres perfeitas é "otário". Quanta amargura!
 
Devo dizer uma coisa. Para mim, o Photoshop e softwares similares são como quaisquer outras ferramentas que temos na vida real. É verdade: ninguém é perfeito – mas também é verdade que ninguém deixa de dar uma "melhorada" naquilo que não gosta. 
 
Em um mundo onde mulheres e homens abusam da maquiagem para disfarçar de olheiras a manchas de pele, fazem de progressiva a luzes para deixarem os cabelos mais belos, usam cintas modeladoras e roupas com certos ajustes para disfarçarem barrigas, culotes e gordurinhas, põem sapatos de salto para parecerem mais altos, fazem clareamento anal e depilação "bigodinho" para deixar a "zona sul" mais apresentável, ostentam sutiãs, calcinhas e cuecas com enchimento e, quando não dá mais jeito, apelam para a última moda em fitness ou cirurgia plástica, jura que o Photoshop é que é o vilão do mundo?! 

    

O Photoshop da publicidade da C&A com Preta Gil virou até meme no Facebook (Imagem: Reprodução Facebook)

Antes de criticar o uso do Photoshop, você, homem ou mulher, deveria se olhar no espelho e ver que ferramentas artificiais você usa no "mundo real" para melhorar a aparência e disfarçar imperfeições – pois um Photoshop bem usado, com uma pessoa de bom senso por detrás da tela, faz exatamente isso. Disfarça o que não está tão bom, realça o que é mais bonito e melhora o que se pode melhorar. Igualzinho àquele tratamento de pele e cabelo, afora a maquiagem, nos quais você gastou centenas de reais mês passado. 
 
Assim, se você não se incomoda em se maquiar com uma boa base e corretivo que escondam olheiras e corrijam manchas na pele, uniformizando-a e deixando-a mais suave, por qual motivo se posa toda irritada quando um designer usa a ferramenta Blur numa revista, que, a rigor, tem o mesmo efeito? 
 
Aliás, curiosamente, não raro, a pessoa que criticou o Photoshop de Preta Gil porque "não existe mulher perfeita" e diz que quem consome revista X é "otário" é a mesmíssima personagem que criticou Nanda Costa por exibir seus pelos genitais tão ao natural quanto possível na Playboy. Oi? Qual a lógica, então? 'Bora pensar nisso, né? 
 
Digo mais: melhorar foto não é de hoje. Muito antes do Photoshop, bons fotógrafos já faziam uso de iluminação, jogo de luz e sombra e truques com o mesmo fim. Ainda fazem hoje em dia – e quem é que não gosta de uma foto bonita de si mesmo? Antes de criticar o Photoshop e esse trabalho fotográfico, observe sua timeline. Garanto que dificilmente vai encontrar uma foto sua 100% "realista", como aquelas horríveis que todos nós tiramos para o RG ou passaporte – e aí quer que a celebridade saia feia só porque... Ela é celebridade?
 
O que aconteceu com Preta Gil deve ser criticado por dois motivos. Um é o trabalho malfeito e sem noção, que mostrou um exagero sem sentido na imagem. Mesmo no mundo real, nós sabemos que há limites que não devem ser ultrapassados: a maquiagem exagerada ou a plástica a qualquer preço têm efeitos bastante similares e igualmente pouco apreciados.
 
O segundo motivo é a ideologia por trás do exagero do tratamento. Meu colega jornalista Neto Lucon escreveu um interessante artigo sobre a gordofobia que se faz presente mesmo em produtos dirigidos ao segmento "plus size". Isso, sim, é uma crítica interessante, por colocar em evidência a ditadura da estética e a dificuldade que mídia e sociedade têm em valorizar outros tipos de beleza pelo que elas têm de belo: o parâmetro, sempre, é a "beleza-padrão". 
 
No entanto, deixar que a crítica chegue ao ponto de nutrir um sadismo e uma revolta contra todo e qualquer artifício que busque realçar a beleza não é apenas coisa de gente revoltada e tão sem noção quanto o Photoshop de Preta – mas, sobretudo, de gente que é hipócrita, por não se furtar a usar de artifícios similares para se melhorar na vida real e, de muitas vezes, sonhar em segredo com uma abdominoplastia, um silicone, um botox para dar uma aliviada nas rugas, uma lipo pra eliminar os culotes, um exercício mais eficaz pra "trincar" o abdômen ou "zerar o músculo do tchau", ou mesmo uma boa "escova japonesa" para hidratar e alisar as madeixas. Ou tão-somente aquela base translúcida que promete um "brilho natural" para o rosto.
 
Finalmente, dois adendos que se fazem importantes. Não existe e nunca existiu foto ou vídeo na mídia que não inclua um melhoramento. Da maquiagem das novelas da Globo ao Photoshop, que, especialmente, se faz necessário em toda e qualquer revista, mesmo aquelas que se dedicam a retratar animais fofinhos, pois sempre há necessidade de realçar uma iluminação, destacar um detalhe, melhorar a cor. Então, deixemos de ser bobos a este respeito.
 
Segundo, homens (e mulheres) que consomem revistas eróticas e pornôs podem ser tudo, menos otários. Qualquer pessoa bem-informada hoje sabe que o uso de editores de imagens é universal – e por que as consome, então? Pelo mesmo motivo que vão ao cinema: por causa da fantasia. Afinal, masturbação não é essencialmente isso? E mais: por saberem que, numa publicação de qualidade, aquela pessoa foi melhorada, sim, mas não "nasceu de novo". O ator ou atriz, o modelo ou a modelo têm suas imperfeições, mas são bonitos, de qualquer forma – e aí rola a retroalimentação no terreno da fantasia.
 
Mesmo se assim não fosse, ou não for, vale novamente aquela história de olhar o próprio r*bo, sabe? Se você, mulher-rebelada-com-o-Photoshop, vai ao cinema para sonhar e suspirar por aquele príncipe que sabe que não existe ou grita por aquele cantor que vai ao banheiro como todo mundo e, muitas vezes, é uma pessoa totalmente diferente na intimidade, por que seu namorado é "otário" por utilizar a Mulher-Maravilha do Photoshop para turbinar suas fantasias masturbativas?
 
O princípio é, rigorosamente, o mesmo.
 
Imagem: Divulgação C&A