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PORQUE AS PESSOAS TRAEM?
Por Carolina Cazella

Dizem que o que os olhos não vêem, o coração não sente. Parece desculpa de quem quer “aprontar”, mas, na verdade, existe muita coisa por trás da famigerada traição.

Todos sabem que, em um namoro ou casamento, é “proibido” ficar e transar com outras pessoas. O acordo tradicional dos relacionamentos pressupõe que um parceiro só tenha olhos para o outro, mas, na prática, o que vemos são pessoas que passam a se sentir no direito de controlar as outras.

A natureza humana é monogâmica?
Há quem apele para uma “origem evolutiva” do comportamento humano. Nesse caso, as mulheres seriam as principais interessadas em manter uma relação monogâmica, a fim de garantir a exclusividade dos recursos que o macho traria para a prole. Os homens, por sua vez, teriam interesse em assegurar a paternidade da cria, garantindo que seus genes fossem passados adiante.

Se observarmos com cuidado, no entanto, veremos que essa questão esconde nuances mais complexas e que a idéia de duas pessoas que se completam por toda a vida não passa de uma construção. Na prática, as pessoas tentam se adequar ao modelo romântico, mas se sentem impelidas a trair, pois parece que o acordo de exclusividade não satisfaz.

É o caso de Hugo*, 32 anos, que, há oito anos, pula de um namoro para outro. Hugo conta que sempre se relacionou com meninas de outras cidades, o que, para ele, garantia sua liberdade. O fato é que os relacionamentos “sérios” não o impediram de viver outras histórias. Aliás, segundo o próprio, foi justamente por isso que ele sempre emendou um namoro no outro. Casos como o de Hugo* parecem mais comuns aos homens, já que eles são culturalmente ensinados a achar esse tipo de comportamento normal, enquanto as mulheres são treinadas para condenar e reprimir a “puladinha de cerca”. Será?

Trair e coçar, é só começar

As mulheres parecem trair menos, mas tudo indica que não – ou que, pelo menos, a traição afeta de igual forma homens e mulheres e que os dois têm buscado igualmente alternativas ao modelo da exclusividade.
Para a publicitária Bia*, 23 anos, “se a relação não está legal, cada um tem que fazer o possível para ser feliz”. Já se a relação estiver bem, o discurso muda: “Aí, não dá, né? Não vou dizer que eu não fiz, mas não acho bonito, me sentia culpada”.

Seguindo essa trilha, mas indo bem mais longe, o “Livro de Ouro do Sexo”, de Regina Navarro Lins e Flavio Braga, lançado em março de 2006 pela Ediouro, trata abertamente da traição e de outros assuntos polêmicos envolvendo os relacionamentos afetivos e sexuais.

Os autores defendem que a relação monogâmica não é natural, mas uma construção romântica – e que talvez seja por isso que os relacionamentos se tornem tão desgastantes e complicados. Para Lins e Braga, haverá uma mudança a longo prazo no padrão exclusivista, cujos indícios já podem ser vistos hoje em dia. Um exemplo seriam os casais com relacionamento aberto.

Além disso, os autores prevêem que, cada vez mais, haverá espaço para que as pessoas busquem seus caminhos individualmente, sem precisar de uma moral exterior para dizer o que está certo. Tudo bem, mas isso não significa que essas idéias já sejam amplamente aceitas por aí. Para a professora, Marina*, 48 anos, por exemplo, essa história de relacionamento aberto é inadmissível: “O pior da traição é a deslealdade que existe por trás do ato. Nós temos que saber controlar nossos instintos”.

O romantismo parece ter um apelo mais forte para as mulheres do que para os homens, mas talvez porque nós seja mos treinadas a associar nosso valor diante do grupo social ao fato de “pertencer” a alguém, como se a mulher não existisse por si só. Sim, é uma ideologia machista, mas que ainda mantém suas marcas no imaginário feminino.


Previsões
Enquanto não alcançamos a abertura prevista por Lins e Braga, nos encontramos num momento em que as pessoas se mostram mais maleáveis quanto à temida traição e buscam alternativas no acordo vigente no relacionamento ou simplesmente para si mesmas.

Em boa parte dos casos, homens e mulheres se mostram mais preocupados em ser fiéis a si mesmos do que às convenções sociais – e, quem sabe, se todos fossem mais honestos em relação ao que sentem, seríamos mais felizes? Este assunto certamente não termina aqui.


Depoimentos

“Já traí meu marido em minha própria casa”
“Foi depois de pegar uma notinha de motel dentro da carteira dele”, justifica a vendedora Rosângela*, 33 anos. Ela ficou tão brava que, depois de uma festinha que o casal ofereceu aos amigos, cedeu às investidas de um amigo na cozinha. “Foi por vingança mesmo. Ele vivia dizendo na frente dos meus amigos que eu podia fazer o que eu quisesse, que ele era a favor do amor livre”. Nessa relação, apenas um dos parceiros concordava com a abertura. Quando isso acontece, o parceiro mais conservador sofre muito. Rosângela, por exemplo, diz acreditar “num amor para a vida toda, um só”.

“Só é traição quando entra no coração”
Aline*, 25 anos, conta que, em 2005, ficou com um colega de trabalho algumas vezes enquanto ainda namorava – e não considera isso traição. Segundo ela, as ficadas ocorriam “por amizade mesmo”.
Aline* diz que, certo dia, passou na casa dele, o rapaz veio se achegando, disse “nossa, eu te acho a coisa mais linda” e lascou-lhe um beijo. Para não perder o amigo, ficou. No final do mesmo namoro, ela se apaixonou por outro homem. Dessa vez, sim, se sentiu mal e resolveu terminar.


“Era como se eu devesse fidelidade aos meus sentimentos, e não ao meu namorado”
Carina*, 18 anos, conta que só se sentiu culpada uma vez. Ela estava no início do namoro e traiu o namorado com o ex. “Me senti muito mal porque eu ainda era apaixonada pelo meu ex. Aí, no dia seguinte, transando com meu namorado, quis parar tudo porque tive certeza de que ainda gostava do outro”.