Mulheres botam a mão... Na massa

por Anelise Csapo

A contradição entre os desejos femininos e os valores dominantes engendra novas condutas, e a indústria da pornografia agradece: filmes, revistas e outras produções com uma perspectiva feminina não param de pipocar nas prateleiras. Chegou a hora de prestar atenção nisso.


Grandes produtoras, como a Vivid Entertainmente a Digital Playground, têm aberto espaço para a visão feminina, além da Playgirl TV. Até iniciativas independentes, como a Stella Films Production, não param de produzir filmes.

Elas desejam
Mas, afinal, como pensar numa abordagem pornô feminina? A pista é dada por Laura Schichvarger, que apresentou um trabalho à Faculdade de Jornalismo Cásper Líbero, em São Paulo, sobre indústria pornográfica brasileira: “Pornografia é diversão, [...] como um prazer que leva ao encontro de si mesmo. Talvez seja esse o mais forte elemento feminino da minha visão. Ao mexer com o tabu da vida privada [...], revela-se a política das relações humanas”.

Revelar tal política é, antes de tudo, retratar as histórias com mais sinceridade – e, de fato, esse é o ponto forte, por exemplo, dos filmes de Femme Productions, da ex-atriz pornô Candida Royalle.

Na comparação entre filmes pornôs dirigidos por homens e mulheres, a diferença é gritante. Enquanto as produções dirigidas por homens costumam ter cenas quentes nos primeiros cinco minutos, as femininas demoram pelo menos o dobro, pois precisam “criar um clima” e até convencer as espectadoras de que elas também poderiam ter vontade de transar naquela situação. Confira Stud Hunters (2003) , da própria Royalle, para comprovar.

Em entrevista sobre o assunto, a diretora da Playgirl TV, Kelly Holland, destaca outros diferenciais: homens mais gentis em cena, tramas envolventes e nada de closes explícitos. As exigências para agradar a audiência feminina incluem ainda preliminares e orgasmos femininos e ausência de sexo anal e grupal.

Cenas de gozo facial também são pouco toleradas. “Não queremos ser tratadas como submissas e idiotas”, dispara Holland. “O que pode parecer uma pequena rebelião contra a repressão ao sexo [...] ou uma explosão da sexualidade reprimida, na maioria das vezes, é retratado de maneira grosseira e humilhante para as mulheres”, diz Candida Royalle, em um site de críticas de filmes.

 Pornô Feminino

Elas fazem
Na hora de dizermos que mulheres têm tornado possível essa outra abordagem, Royalle certamente está entre elas. A ex-atriz estreou no pornô em 1975, tornou-se diretora e atualmente está no catálogo de mais de 30 filmes dirigidos por mulheres da sex shop feminina (sim, isso também existe!) Toys in Babeland, nos Estados Unidos. Entre os “radicais”, há a série Bend Over Boyfriend, que ensina a espectadora a fazer sexo anal no namorado.

Já Jane Hamilton, também conhecida como Veronica Hart, é diretora de The Pick-up, um dos dois contos retratados em A Taste of Ambrosia (1980) , exemplo clássico de pornô feito por mulheres.

Não deixe de conferir ainda o trabalho de Ovidie, atriz pornô, feminista militante, filósofa e, principalmente, um sucesso meteórico no pornô francês. Capaz de observar criticamente o papel da mulher nesse tipo de indústria, Ovidie é autora do livro Pornomanifesto, em que se manifesta a favor de um feminismo pró-sexo.

Pornô Feminino

Elas descrevem
No terreno da literatura erótico-pornográfica, o livro A Vida Sexual de Catherine M. faz um relato cirúrgico e real ao mostrar uma mudança de costumes em que a pornografia é cada vez mais entendida como “fato da vida”.

Quanto às edições novas de clássicos, quem leva o mérito é a editora LP&M, com Delta de Vênus, de Anaïs Nin, Tereza Filósofa (autor desconhecido) e AntiJustine e O Marido Complacente, do Marquês de Sade. Vale lembrar ainda da edição de História do Olho, de George Bataille, da Editora CosacNaify.

A coleção Os Libertinos, da editora Ágalma, é organizada por Eliane Robert Moraes. São quatro livros: As Onze Mil Varas, de Appollinaire; Gamiani ou Duas Noites de Excesso, de Alfred de Musset; A Filosofia na Alcova, de Sade; e Três Filhas da Mãe, de Pierre Louÿs. O clássico História de O. também foi reeditado. Vale a pena conferir o que essas mulheres têm feito, como autoras, diretoras ou editoras, nesse terreno até agora tão masculino.

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