ARTIGO

Gonzo: estilo ou exagero?

Hoje, na Europa - em particular, na França -, há uma polêmica. O que é melhor: o vídeo pornô gonzo ou o filme com história e diálogos? O público se divide entre prós e contras...

por Valter José

Quando o gonzo apareceu, ninguém imaginava o que o gênero se tornaria depois. Tecnicamente, John Stagliano pode ser considerado o primeiro diretor gonzo, com seu jeitão de rodar cenas sem diálogos inventados e com sexo bem espontâneo.

Entretanto, a palavra foi usada pela primeira vez, para o pornô, na revista norte-americana AVN (Adult Video News), a fim de caracterizar as cenas rodadas por Seymore Butts e Shane, sua namorada na época. O casal saía pelas feiras e festas vivendo aventuras sexuais, como se estivessem em uma eterna festa entre amigos.

Butts não gostou nada da ideia. Sentiu-se rebaixado pela AVN, que, segundo ele, queria tirá-lo de ação na concorrência com o Buttman, John Stagliano. Na época, Seymore era um grande sucesso.

No entanto, depois disso, o termo gonzo se firmou e passou a ter um sentido novo. Tornou-se sinônimo de sexo hardcore e até hiper-hard, tendo como padroeiro Max Hardcore, cujo nome verdadeiro é Paul Little - contemporâneo de Seymore Butts, mas sem o humor e a delicadeza dele -, que simplesmente detonava as mulheres com dilatações anais, tapas na cara e outras práticas.

Hardcore pode ser considerado historicamente um dos precursores do gênero e até hoje é lembrado, com certo horror, pelas brasileiras Suzi Rios e Glaucia, que trabalharam com ele.

O GONZO CONQUISTA O MUNDO
O gonzo é o estilo dominante no século 21, era do Viagra, dos suplementos vitamínicos, do jiu-jítsu e da bissexualidade violenta e exacerbada. O que manda agora é o sexo frenético, aeróbico e violento.

O estilo fez emergir atores como Erik Everhard, Jazz Duro, Nacho Vidal, Manuel Ferrara, Kurt Lockwood e Jean Valjean. Essa tropa tem como chefe o italiano Rocco Siffredi, cujos trabalhos se tornaram o vade mecum de todos os atores da nova geração.

Foi Siffredi quem tornou lema bater no rosto das parceiras, cuspir nelas e fazê-las lamber seu dedão do pé - mas o gonzo tem também o seu batalhão de atrizes: Courtney Cummz, Sandra Romain, Hillary Scott, Eva Angelina, Katsuni, Melissa Lauren, Annette Schwarz, Katja Kassin, a negra Marie Luv e até Belladonna.

São mulheres que se adaptaram às dilatações anais, concordam em ser penetradas por qualquer objeto e em tomar puxões de cabelo - e que, em troca, ganham bastante dinheiro e Troféus AVN, o “Oscar” do pornô.

Entre as produtoras que mais se salientam no estilo temos: Red Light District, Zero Tolerance, Sineplex e Combat Zone. Entre os diretores, estão Jake Malone, Justin Slayer, os já mencionados Manuel Ferrara e Rocco Siffredi, além daqueles que, particularmente, considero talentosos: Jules Jordan e Martin Del Toro.

DESAFIOS
Pessoalmente, não sou muito fã do gênero gonzo - e um dos problemas que vejo no estilo é ter se tornado dogmático e repetitivo. As cenas são muito semelhantes: tudo começa com a atriz se exibindo para a câmera ou andando para mostrar a bunda; depois, aparecem uns caras que lhe dão cusparadas no rosto, tapas e puxões de cabelo. Segue-se uma chupeta, e, na hora do anal, o ator musculoso levanta a atriz para mostrar o ânus dilacerado dela para a câmera. Parece que, até agora, essas tomadas têm sido um grande sucesso de vendas, segundo os produtores.

No entanto, como o neoliberalismo, o gonzo começa a viver um lento crepúsculo. Não está mais valendo a pena assistir às mesmas coisas, dirigidas por gente, a meu ver, sem talento, como Raul Christian, David Luger e outros.

O veterano Christoph Clark, francês que ainda reza na bíblia gonzo, tem reclamado dos excessos. Segundo ele, já está difícil encontrar atores que saibam tocar em uma mulher.

Ao mesmo tempo, as prisões de Max Hardcore e os processos contra John Stagliano talvez sejam um sinal. Na verdade, é possível que a repetição e o dogmatismo estejam indo para o buraco. Que lá descansem em paz.


Publicado em 21/03/2011.