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Prova de fogo

por Wellington Torelli


 

Sucesso no mundo pornô traz dificuldades amorosas e familiares para atrizes e atores


Atrizes e atores pornôs se tornam símbolos sexuais assim que seus rostos começam a ficar conhecidos, mas, à medida que a fama, o dinheiro e as oportunidades aumentam, cresce a exposição e os problemas na vida pessoal.

Para revelar um pouco mais sobre o cotidiano delas e deles, entrevistamos três personagens que o leitor certamente já viu nas páginas e trechos de filmes de Sexsites: Pamela Butt, 29 anos, Suzy Anderson, 31, e Carlos Bazuca, 30.

Amor

Óbvio, um dos primeiros questionamentos foi quanto ao assédio amoroso. A exposição nos filmes, afinal, modificou alguma coisa na hora da paquera? “Quando a pessoa está paquerando a gente, sempre pinta aquela dúvida: ‘Será que ele viu o filme?’. Uma vez, aconteceu até de o rapaz [...] falar sobre meu trabalho – mas, no fim, só rolou amizade mesmo [...]. Acho que, na paquera, o homem jovem ainda confunde a pessoa com a personagem”, conta Suzy. A morena, porém, concorda com Bazuca e Pamela quando eles dizem que, quando se trata de fãs declarados, o assédio é carinhoso e não-invasivo.

Muito bem, mas e quando a relação fica mais séria? “Acredito que você tem que abrir o jogo, antes mesmo que outra pessoa chegue nele e conte [...] – e o homem tem aquela coisa machista [...]. Acredito que ele até não se importe se você é atriz pornô ou não, [...], mas, com certeza, o que fere o orgulho dele é o amigo que chega e fala ‘Vi sua garota em filme tal’”, opina Pamela.

“Meu namorado atual sabe da minha carreira, respeita [...] – mas também ele já é um homem maduro, sabe separar as coisas”, conta Suzy, fazendo um paralelo com os homens mais jovens que citou anteriormente.

Já Bazuca tem um relacionamento estável de 6 anos e confessa que, nos namoros até então, o máximo que, muitas vezes, ele admitia ser era stripper. Com a esposa, porém, a carreira veio à tona: “Não falamos muito no assunto também, mas, quando digo que tenho trabalho amanhã, ela já sabe que o lance é impessoal”.


Carlos Bazuca

Família

Se a coisa já é complicada na paquera e no amor, que dirá quando o assunto é a família! Suzy Anderson e Carlos Bazuca comentam que um de seus primeiros contatos com o preconceito partiu primeiro dos parentes – principalmente pelo fato de que, em ambos os casos, as famílias eram evangélicas.

“Hoje, eu tenho uma relação mais tranqüila com minha família, principalmente com minha mãe, [mas] ela abominou [...]. Ficamos dois anos sem nos falar. Com meu pai, eu não tive muito problema, porque ele [...] levou a questão pro lado profissional [...]. Tive mais problema de aceitação na família do que na sociedade”, lembra Suzy.

Via de regra, a família sempre aparece como um tabu – e isso não só para atores, mas também para profissionais como garotos e garotas de programas, strippers, go-go boys/girls, etc. Quando a família em questão é a do(a) companheiro(a), pode ser ainda mais complicado. “A sua família compreende você, sua opção, sua escolha, porque, além do laço fraterno, você cresceu com ela [...]. A família do cara, não. [...]. Pode te julgar de todas as formas”, diz Pamela Butt.

Mesmo assim, às vezes, há boas surpresas. Segundo Suzy, 31 anos e 70 filmes, a relação com sua “sogra” é das mais naturais – mesmo sem comentarem o assunto: “Saímos pra fazer compras juntas, pra passear, ir ao shopping... Enfim, tenho uma vida normal [...]. Vou à escola com meus filhos, faço meus cursos – mas tudo depende muito da pessoa com quem você se relaciona, pois, além de o meu namorado ser bastante maduro, a mãe dele é uma mulher vivida, encara a vida de uma outra forma”.

Filhos

Quando se fala em filhos, Pamela e Suzy, que já são mães, dizem que a conversa sobre a profissão deve ficar pra mais tarde. “Meu filho mais novo viu uma capa sem querer [...]. Eu estava loira, e ele me reconheceu. Falei que não era a mamãe, mas não adiantou”, diverte-se Suzy, hoje morena.

Bazuca, que ainda não é pai, prefere deixar para o futuro a decisão, mas acredita que a paternidade seria ideal depois que a carreira pornô fosse passado. Já para a gaúcha Pamela, os filhos, que moram com a avó em Gramado, não são um empecilho para a carreira, mas os namorados: “É ruim, porque a carência acaba batendo uma hora ou outra. A saudade da família, eu resolvo indo pelo menos uma vez a cada dois meses pra vê-los – mas o homem sempre acaba cobrando, e tem uma hora em que é preciso optar. Você acaba perdendo até seu romantismo”.


Pamela Butt

Gênero

E será que a realidade do preconceito recai igualmente sobre os sexos? Carlos Bazuca, 9 anos de carreira e 700 filmes, acredita que não, pois o machismo latino é outro fator que impera no mercado: “O preconceito com a atriz é muito mais pesado, tanto por parte dos pais quanto da família. A mulher é mais repudiada. Pra sociedade, é o cara que ‘tá traçando’ [...], ele é o bom, o garanhão, ‘o tal’”.

Em vista do preconceito e da falta de informação, por sinal, muitos “garanhões” são atraídos equivocadamente para o mercado. “Para começar, os caras acham que o set de filmagem é a maior putaria, que o diretor filma com a calça aberta, a atriz dá pro contra-regra [...]. Só que chega ali, não é nada disso. Muitas vezes, você vai ter uma relação íntima com quem você antipatiza [...], tem que gozar com o tempo delimitado, [...] transar em um lugar desconfortável. Outra coisa, não há a privacidade. A pessoa que pretende ser ator, principalmente homem, precisa ter em mente que a coisa é totalmente profissional”, diz Carlos.

Pamela Butt, pouco mais de 40 filmes no currículo, também se queixa da falta de profissionalismo de alguns atores – e atrizes: “A gente encontra dois tipos de pessoas nos sets. Os profissionais que saem do camarim, atuam [...] e voltam pra sua vida normal – e a ‘banda podre’, principalmente por parte dos atores, que pensam que tudo é putaria, é pegação”.

“Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, já cantou Gal Costa. Tudo isso que nossos veteranos nos contaram serve como reflexão para nós, enquanto fãs, e para os possíveis iniciantes. É uma tônica que deve ser pesada antes de enviar com fotos as produtoras e revistas especializadas...