MATÉRIA
 

Elas vão se amarrar!

Conheça o shibari e mantenha sua gata sob controle


por João Marinho





Tudo começou no Japão dos samurais, guerreiros que possuíam, entre suas técnicas, o hojojutsu. Considerado uma arte marcial em si mesmo, o hojojutsu foi desenvolvido para controlar, restringir ou impedir os movimentos de um inimigo ou prisioneiro. O elemento essencial é uma corda, que os samurais traziam presa ao cinto.

Depois de subjugar o adversário, o samurai iniciava com a corda um elaborado traçado sobre o corpo daquele, lançando mão de diferentes métodos de acordo com o domínio da arte e a intenção – de apenas restringir até imobilizar, ou ainda provocar perda de consciência. O hojojutsu existe até hoje e conta com entusiastas pelo mundo.

Muito interessante, mas o leitor deve estar se perguntando o motivo dessa introdução. É que, ao longo do tempo, algumas pessoas passaram a ver naquelas cordas um quê altamente sensual – e assim nasceu o primo do hojojutsu: o shibari!

Presas do prazer

O shibari se torna interessante por causa de sua finalidade erótica. A ideia é dar prazer ao (à) dominador ou dominatrix, que tem domínio sobre o corpo de um (a) submisso (a) – que, por sua vez, encontra o prazer tanto na sensação de estar à mercê de outrem quanto na compressão das amarras, já que, no shibari, a corda passa em pontos estratégicos e sensíveis do corpo. “Muitas amarras costumam causar uma certa excitação, por passarem por esses lugares”, diz Mister K(1) , 31 anos, adepto da arte.

A relação com o bondage, popular entre o povo do BDSM(2), é evidente. “Existe o bondage, que é a arte da imobilização erótica e que pode ser feito com várias coisas: algemas, cordas, cintos, etc. Dentro do bondage, existe o bondage com cordas, e, dentro deste, há um tipo muito específico de amarras e nós [...]. É o shibari”, explica Mister K.

O shibari diferencia-se do bondage ocidental porque, ao contrário deste, não se esgota apenas na imobilização: além da já referida compressão estratégica das cordas, há a estética. “No bondage ocidental, basta seguir algumas regras de segurança e deixar a criatividade correr solta. No shibari, não: tem de seguir a técnica. É comum utilizar um padrão de cordas com 7 m [...], e ele nem sempre ele é utilizado para imobilizar. Algumas amarras são feitas para serem ‘usadas’ no corpo, como se fossem uma espécie de lingerie”, diz Mister K.

Desatando nós

De onde viria, porém, esse “tesão pelas cordas”? O psicólogo e analista do comportamento João Pedrosa, 51, dá uma explicação: “Nosso repertório comportamental sexual é alicerçado na infância e adolescência [...]. Numa visão da análise do comportamento, são as contingências passadas que determinam nosso comportamento atual”.

“Vamos a um exemplo”, continua ele. “Um homem [...] associou através de condicionamento ser dominado com excitação sexual. Aí, se estabeleceu o comportamento de ser submisso. Na idade adulta, ele refinou este comportamento, pedindo para ser amarrado, algemado, entre outras práticas. Hoje, se diz adepto do bondage”.

Uma das questões que envolvem o universo BDSM é o fato de que há pessoas que consideram essas práticas bizarras e até doentias. Perguntamos a João Pedrosa se há respaldo para isso.

“Os comportamentos sexuais atípicos ou pouco comuns [...] hoje são chamados de parafilias. O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), da Associação Americana de Psiquiatria, que serve de guia para diagnósticos no Brasil, trata das parafilias, que são fantasias, anseios sexuais ou comportamentos recorrentes, intensos e sexualmente excitantes, geralmente envolvendo objetos não-humanos, sofrimento ou humilhação, próprios ou dos parceiros; ou crianças ou outras pessoas sem seu consentimento”.

“O sadomasoquismo”, continua Pedrosa, “é classificado como parafilia no DSM [...]. O DSM não classifica todas as parafilias, que são inúmeras, apenas: exibicionismo, fetichismo, frotteurismo, pedofila, masoquismo sexual, sadismo sexual, travestismo fetichista e voyeurismo. Excetuando a pedofilia [...], as demais parafilias, desde que não tragam sofrimento para um dos parceiros, danos emocionais a terceiros e sejam algo consentido pelos dois, não devem ser consideradas desvios”.

Vale lembrar que o BDSM é regido pelo princípio do SSC (são, seguro e consensual). Portanto, Mister K. pode dizer, sem medo: “sempre gostei de bondage com cordas. Sempre pesquisei sites, vídeos, revistas, etc. Nos últimos anos, o shibari tem se popularizado por esses canais. Eu comecei a me interessar pela estética que ele tem. Existe uma simetria nas cordas, a pessoa fica realmente bonita [...]. Mulheres amarradas são a minha tara!”.

Na corda bamba

O site Desejo Secreto (www.desejosecreto.com.br) diz sobre o shibari: “A pessoa envolvida no papel receptivo [...] deve ter noção do que é estar imobilizada [...], sem defesa, saber negociar, ter muito respeito próprio, confiança no parceiro, e ambos precisam aprender a se entenderem da maneira mais completa possível, mas o parceiro ativo [...] também tem muito a aprender e treinar. Precisa ter uma personalidade balanceada e ser capaz de abrir mão de suas motivações pessoais em favor do esforço do ‘grupo’”.

Como dá pra perceber, treino e paciência são essenciais. “Até ter um básico de alicerce no shibari, entre o zero e passar a pesquisar, se informar, praticar até chegar a dominar dez amarras bem aprendidas, diria que pode levar cerca de um ano”, diz Mister K.

Claro que, com esse grau de elaboração, encontrar shibaristas experientes e disponíveis não é fácil – daí, termos entrevistado Mister K. como fonte privilegiada. “Existe uma carência muito grande de material sobre shibari no Brasil”, confirma ele. “A coleta de informações é mais um garimpo. A gente encontra muita coisa em japonês, ou em inglês, ou acaba aprendendo visualmente mesmo [...] e lendo muita coisa sobre a história do shibari, requisitos de segurança e tal. É possível importar DVDs do Japão, mas ainda tem a barreira da língua. Quem tiver boas noções de inglês pode conversar com gente do exterior, onde a informação é mais acessível”.

No entanto, se você se interessou, mas esse não é seu caso, não se desespere. Mister K., que já deu aulas e workshops de bondage básico, deixa seu contato: misterkrock77@gmail.com. Boa sorte e boas amarras!

(1) por uma questão de privacidade, o entrevistado utilizou seu pseudônimo usual como praticante.

(2) sigla para bondage, disciplina, dominação, submissão e sadomasoquismo

O shibari tem algumas regras básicas:

1. Utilizar cordas muito macias. Não pode queimar nem pinicar. “No exterior, usam corda de juta ou cânhamo. No Brasil, as de algodão são ótimas”, diz Mister K;

2. Imobilizar a pessoa de forma que ela não consiga se soltar, a menos que outra o faça;

3. Garantir a integridade física da pessoa amarrada. Não há o intuito de causar dor;

4. Ficar bonito;

5. Ter uma palavra de segurança (safeword), combinada previamente. Quando o (a) amarrado (a) quiser parar, ele a usa. Prefira palavras fora do contexto;

6. Manter os instrumentos de escape – canivetes, facas, tesouras (sempre sem pontas) – por perto.


Curiosidades

· A diferença dos nós e amarras é que os nós prendem corda com corda, e as amarras prendem a corda em algo – no caso, uma pessoa. E os nós têm nomes próprios;

· “Shibari” significa “amarrar”. A arte se popularizou com esse nome no Ocidente, mas é chamada de kinbaku ou kinbaku-bi no Japão;

· Embora algumas técnicas do shibari derivem do hojojutsu, o shibari é bem mais suave; · O japonês Ito Seiu é geralmente considerado o “pai” do shibari. Ele começou a estudar e pesquisar o hojojutsu em 1908 e o transformou num tipo de arte;

· Uma amarra de corpo todo ou de tronco e braços leva, em média, “uns cinco ou 10 minutos para ser feita, dois a cinco para ser desfeita, e de 10 a 30 minutos de imobilização”, diz Mister K;

· Homens amarram mais. “Por uma questão de gênero [...], o desejo de amarrar e dominar é mais comum nos homens e de ser amarrada nas mulheres”, diz Pedrosa – mas também há mulheres dominadoras e homens submissos.

Reproduções: tengalgorhythm.blogspot
www.charleroi-danses