ARTIGO

Assim começou a pornografia

Hoje em dia, é fácil saborear as delícias de uma revista erótica. Pernas, seios, bundas e cada pedaço de uma mulher são retratados fielmente pelos espertos fotógrafos – mas a diversão masculina em revista nem sempre foi assim...

 

por Vicente Montanha

Um dos prazeres mais antigos da humanidade é a masturbação, especialmente quando há algum tipo de “inspiração”. Não pense, porém, que os homens do início do século passado tinham um site como o Sexsites para se saciarem.

Naquela época, as “mãos peludas” contavam com as Tijuana Bibles, algumas das primeiras revistas pornográficas de que se tem notícia. Eram edições desenhadas por artistas anônimos que continham, em sua maioria, oito páginas e eram produzidas e distribuídas nos Estados Unidos entre as décadas de 1930 e 1950.

Tijuana Bible

Há dúvidas quanto à origem do nome: para muitos, “Tijuana Bible” é uma referência ao fato de que a cidade mexicana de Tijuana foi um importante polo de distribuição, já que as revistinhas eram ilegais nos Estados Unidos, e a venda lá era mais difícil. Para outros, é um apelido irônico que une “Bíblia”, ícone da moralidade, e “Tijuana”, cidade que era sinônimo de “ilegal” naquele período.

HISTÓRIA TAMBÉM É PORNOGRAFIA
Seja como for, um dos motivos de sua proibição - e uma de suas características mais divertidas - era que as Tijuana Bibles gostavam de sacanear os ícones culturais da época. Suas estrelas eram personagens do cinema, da política e até dos quadrinhos infantis.

Vendidas em barbearias, estações de trem e cais de portos, elas influenciaram muitos cartunistas, não só os de cunho erótico, mas também os dos chamados “quadrinhos malditos”, típicos de revistas como a MAD.

As Tijuana Bibles foram criadas no final da década de 20, período considerado como a maior e pior recessão financeira do século 20.

A Grande Depressão ou Crise de 29 arrasou inúmeras famílias norte-americanas e causou altíssimas taxas de desemprego, o que gerava revolta em toda a população. Como chocar uma sociedade que parecia não notar os problemas à sua volta? A resposta veio mexendo com os baluartes do sistema, colocando em quadrinhos os personagens mais diversos em situações que só acontecem entre quatro paredes.

Tijuana Bible

CARLOS ZÉFIRO
No Brasil, também existiu um precursor das revistas de sacanagem. Em 1950, quase 20 anos depois do surgimento das Tijuana Bibles, o Brasil pôde conhecer os “catecismos” de Carlos Zéfiro, pseudônimo de Alcides Caminha.

Ao contrário das versões norteamericanas, as de Zéfiro não traziam personagens conhecidas do grande público, mas os desenhos tinham mais qualidade técnica.

Devido à ditadura, a identidade secreta do autor dos catecismos foi preservada durante, pelo menos, 30 anos.

Além disso, como funcionário público que era, Caminha podia perder o emprego se estivesse envolvido em algum escândalo, como dizia a Lei 7.967 da época.

ONDE ENCONTRAR
Dê uma vasculhada nas quinquilharias que seu avô guarda desde a juventude. É provável que você encontre alguma relíquia que, na mão de um colecionador, valha um bom dinheiro. As Tijuana Bibles são um exemplo disso. As poucas existentes hoje são frutos de heranças dos vovôs - e são vendidas por uma grana considerável em sites especializados na internet.

No eBay, por exemplo, já encontramos algumas edições originais por cerca de US$ 20. Ainda assim, algumas são mais raras, e seu valor bate nos US$ 50.

Entretanto, o preço mais alto já pago por uma revistinha dessas foi US$ 504. Isso mesmo, quase R$ 1 mil! A raridade era uma Tijuana Bible com Mickey Mouse e Pato Donald comprada em dezembro de 2002 por um colecionador anônimo no próprio eBay.

UMA INICIATIVA DE PESO
Talvez pensando nos leitores que não tinham dinheiro para tanto, uma iniciativa da editora Opera Graphica em parceria com o organizador Gonçalo Junior, autor de A Guerra dos Gibis e Tentação à Italiana, preencheu uma lacuna no mercado brasileiro e lançou, em outubro de 2005, uma coleção chamada Quadrinhos Sujos, com o melhor do que foi produzido originalmente.

Na época, o grande problema encontrado por Gonçalo Junior não foi achar os desenhos, mas enfrentar as leis de direitos autorais dos personagens, já que, quando as Tijuana Bibles ganharam as ruas, elas eram comercializadas clandestinamente.

Felizmente, o ousado homem resolveu correr o risco e afirmou, na época do lançamento, que o propósito de sua coleção era antropológico e de resgate histórico, como forma de se precaver dos perigos.

TUDO QUE É BOM DURA POUCO
A coleção Quadrinhos Sujos era composta por quatro volumes, todos eles com uma bela introdução assinada pelo próprio Gonçalo.

No primeiro e no terceiro livro, os destaques eram os mitos dos quadrinhos, como Pato Donald, Mickey Mouse, Flash Gordon, Tarzan e Popeye, todos eles em aventuras pornográficas!

O segundo volume era dedicado aos mitos do cinema. Tinha até Carmen Miranda mostrando o que fazia com seus cachos de banana, além de Clark Gable, Cary Grant, o Gordo e o Magro.

Finalmente, o quarto e último livro da coleção apresentava os bandidos e mocinhos da vida real em situações constrangedoras: Hitler, Stalin, Mussolini e até Gandhi tiveram suas vidas pessoais devassadas nas Tijuana Bibles.

Só que tudo que é bom, caro amigo, dura pouco. Quadrinhos Sujos fez sucesso, vendeu e se esgotou nas livrarias - e, seis anos depois, não há qualquer suspeita de uma futura reimpressão.

Nessas condições, as únicas alternativas são os fóruns de fãs e os sites de leilão. Acredite ou não, tem gente que vende. Então, é encher o peito - e boa sorte!


Imagens: Reprodução/Divulgação | Publicado em 29/09/2011.