FETICHE

Muito além da simples espiadinha

Por Alessio Venturelli (alessio.venturelli@gmail.com)

Entre os sentidos humanos, a visão é um dos que mais estimulam a nossa sexualidade. Quem nunca ficou tentado em espiar através do buraco de uma fechadura ou observar pela janela aquela vizinha gostosa, que tem o “inusitado” hábito de circular pela casa com roupas íntimas?


Como tudo começou

Isso tudo faz parte da curiosidade natural do ser humano pelo sexo – e é tão comum que um recente levantamento realizado pelo Instituto de Pesquisas Datafolha revelou que 27% dos brasileiros admitiram já ter praticado o que chamamos de voyeurismo – ato de observar secretamente alguém se despindo ou transando sem a permissão daquela(s) pessoa(s).

Para Freud, o voyeurismo é uma forma de termos prazer com o proibido. Segundo ele, o ato de observar sem ser observado é como tomar posse de outras vidas.

Na literatura, a prática serviu como fonte inspiradora para muitos contos e poesias. O mestre brasileiro Nelson Rodrigues costumava dizer que o buraco da fechadura era a sua óptica de ficcionista. Olavo Bilac, por sua vez, também trouxe para seus poemas esse viés erótico. Na obra “Satânia”, ele descreve a ação de uma moça em ato sexual com seu amante, como se observasse minuciosamente cada movimento do casal...

Do prazer à lei

O advento da televisão e posteriormente da Internet acabou por difundir a mania ainda mais, que hoje é abominada por muitas pessoas, principalmente as famosas – não por acaso, as principais vítimas dos voyeurs. Quem não lembra das cenas quentes da princesa Diana, indiscretamente flagrada num iate aos amassos com seu então namorado Dodi Al-Fayed? A ousadia de alguns voyeurs mais radicais tem causado tantos transtornos que, em muitos países, foram criadas leis para inibi-la.

Nos Estados Unidos, o Congresso criou uma série de regras para o uso de videocâmeras. A preocupação surgiu quando 28 estudantes da Universidade da Pensilvânia foram protagonistas involuntários de filmagens feitas nos vestiários da faculdade. Resultado: desde o final de 2004, quem se aventura a comercializar vídeos desse tipo corre o risco de ser preso.

Ainda nos Estados Unidos, um mecânico de 43 anos recentemente foi detido dentro de um supermercado, na Flórida, ao ser flagrado portando uma câmera instalada dentro do tênis. O apetrecho tinha por objetivo espionar o interior das saias das mulheres...

Orgulho voyeur

Mesmo diante da repulsa, há gente que se auto-intitula voyeur, fala abertamente sobre o assunto e não se constrange em contar algumas histórias.

O cantor Rick Martin, por exemplo, admitiu gostar de ver outras pessoas transando à sua volta. Em entrevista ao site musical “Contact Music”, Martin disse que teria se tornado um adepto do voyeurismo depois de participar de uma orgia, quando tinha apenas 15 anos!

O artista plástico José Roberto Aguilar e o videoartista Kiko Goifman também não escondem a simpatia pela prática. Em 1999, Aguilar fez uma exposição, batizada de “Insights de um Voyeur”.

A partir das fotos de quadros, o autor comentava o processo de realização de suas obras, recheadas de corpos apetitosos e multicoloridos. “Este ‘lero’ de voyeur começou quando ‘videoteipei’ uma peça do Zé Celso, chamada “Cacilda”, que tinha mulheres lindas e sedutoras. Quando você não possui fisicamente a beleza, o negócio é sublimá-la em versos, pintura ou vídeo”, disse Aguilar num chat da Internet.

Para Kiko Goifman, que também é antropólogo, a câmera de vídeo é um ótimo dispositivo para o voyeurismo. “Como sempre estou com uma câmera, acho que sempre sou um voyeur. Gosto de experimentar o sentido de radicalidade, de ousadia nos meus trabalhos”, explica.

Em busca do paraíso

A exemplo dos artistas, o empresariado brasileiro tem explorado bastante esse segmento, principalmente no ramo do entretenimento. Existem casas especializadas onde você pode literalmente pagar para ver as cenas de troca de casais, orgias e, se for o caso, participar da festa.

Em Porto Alegre, o clube noturno Sofazão é o local preferido dos voyeurs gaúchos. A casa recebe casais interessados em conhecer novas pessoas, homens e mulheres sozinhos e até mesmo grupos de amigos.

Todos podem interagir e realizar fantasias com quem quiser. Basta a “vítima” aceitar. “Aqui, aparecem muitos homens. As mulheres vêm menos, coisa em torno de 10% do total, mas elas têm a mesma curiosidade”, conta o dono do empreendimento, Roque Rauber – mas, afinal, o que realmente atrai tantas pessoas para essa espécie de invasão de privacidade autorizada?

Mauro Koury, professor de Ciências Sociais da Universidade Federal da Paraíba, acredita que “a busca permanente pelo segredo de uma intimidade alheia, por meio de um ato escondido, fundamenta as dificuldades de interação do homem moderno. De um lado, fica a ampliação da solidão, e, do outro, o espetáculo privado de alguém. Isso amplia a indiferença e a banalização pelo outro real e sua vida virtual”.

A comunidade médica e psicológica tem acompanhado casos patológicos relacionados ao voyeurismo.

De acordo com especialistas, a prática em excesso pode causar prejuízos ao funcionamento social ou ocupacional da vida de um indivíduo. “O voyeurismo é normal a partir do momento em que ele não passe a ser preferência exclusiva, ou seja, um substituto do ato sexual. Pode ser uma forma de estimulação sexual como outra qualquer, não sendo obrigatoriamente um desvio”, esclarece o psicoterapeuta Luiz Gonzaga Francisco Pinto – mas cuidado: no Brasil, já existe um projeto de lei tramitando no Senado Federal que visa punir eventuais excessos cometidos pelos curiosos de plantão.

No Brasil, 27% das pessoas já admitiram ter praticado voyeurismo (fonte: Datafolha)